terça-feira, 22 de julho de 2014

Esclarecimento aos advogados

Aproveitando uma mensagem que respondi hoje, queria fazer um esclarecimento.

Estou sabendo que há umas semanas foi publicada uma reportagem em vários jornais do Brasil falando sobre as profissões em demanda na Austrália. Engraçado que essa lista da SOL não é nenhuma novidade, ela só é atualizada anualmente pelo governo australiano.

É verdade que algumas profissões entraram na lista esse ano, como chef e pedreiro (sendo que chef já esteve durante muitos anos, foi retirada e agora só retornou), mas a maioria não é nenhuma novidade. Mesmo assim os jornais brasileiros publicaram como se fosse a novidade do milênio. Oh, well... rs

Enfim, o Jerry já fez ótimos posts sobre isso (aqui e aqui), e com certeza ele entende melhor do que eu pra opinar. ;)

O que eu queria esclarecer nesse post é sobre uma das reportagens que afirmou que advogado estaria na lista de demanda.

Talvez por conta disso tenho recebido um número maior de emails de advogados perguntando sobre as possibilidades na Austrália.

Ocorre que eu acho que essa reportagem foi extremamente tendenciosa e sem o mínimo de cuidado. A matéria é incorreta quando fala em advogados. Se vc for ver a lista em inglês, o que está lá é “Barrister” e “Solicitor”, e não advogado.

Como eu já expliquei algumas vezes aqui no blog (nesse post, nesse, nesse, nesse), essas profissões não tem equivalência no direito brasileiro e demandam um processo específico de capacitação. Então ainda que esteja em demanda na Austrália, um advogado brasileiro não conseguiria aplicar pra residência com base na lista da SOL enquanto não for admitido na Austrália como barrister ou solicitor.

Ou seja, é o que eu já disse e continuo dizendo: não quero desanimar nenhum advogado, mas acho praticamente impossível aplicar pro visto de residência estando no Brasil e sendo advogado brasileiro. Quem se encontra nessa situação deve tentar buscar outro caminho, infelizmente.

No meu caso, quem aplicou pro visto foi o Thiago, como arquiteto, o meu visto foi concedido como esposa, sem nenhuma relação com a minha profissão.

Desculpe jogar um balde de água fria nos advogados, mas nossa profissão é realmente complicada de exercer em outro país, pela falta de equiparação dos sistemas jurídicos. E mesmo advogados que vem do sistema da Common Law (como ingleses, neozelandeses e até americanos) tem que passar pelo processo exigido pela Law Society pra poder validar o diploma aqui e ser reconhecido como barrister ou solicitor apto a exercer a advocacia na Austrália.

Não me incomodo de responder a dúvidas, e juro que tento responder o mais rápido possível a cada mensagem e email que recebo (ainda que as vezes eu me perca e só ache eles semanas depois perdidos na minha caixa de entrada...rs), mas não tenho muito mais informações do que as que coloco no blog para dar... Não validei meu diploma de advogado aqui, continuo trabalhando como legal secretary/legal assistant, e não pretendo advogar aqui na Austrália.

Quem conseguir trilhar um caminho diferente e quiser compartilhar sua experiência aqui no blog, fique a vontade pra me escrever um relato que publico aqui. :)

sexta-feira, 27 de junho de 2014

Vale a pena se mudar pra Austrália?

Mais um mês sem escrever... Não tenho nem mais desculpas pra tamanho abandono do blog. Podia dizer que é falta de assunto, mas acho que a verdade é que é preguiça mesmo... Fora as mil coisas que aconteceram nos últimos meses (comento algumas no decorrer do post, os fortes que agüentarem ler o testamento que vem por aí saberão! haha).

Hoje estava respondendo um email que recebi, do Dyego, que me pediu opinião sobre se valia a pena largar a vida no Brasil pra tentar a vida na Austrália, principalmente quando já se passou dos 30 anos e o medo de recomeçar de novo vai ficando mais forte.

Achei que seria interessante reproduzir algumas partes da minha resposta aqui.

Pra quem pensa em vir com um visto de estudante com o objetivo de fixar residência definitiva aqui, eu já adianto que EU não faria. Não que não tenha gente que tenha conseguido vencer aqui nessas condições, tem aos montes, mas EU, na época que vim, com mais de 30 anos, uma carreira sólida no Brasil, um ótimo emprego e tal, não largaria tudo por um visto de estudante e um futuro absolutamente incerto. Pra quem quer vir nessas condições, meu conselho é: trace um plano muito bem estruturado de longo prazo para conseguir uma residência. E nisso não se inclui casar com australiano, tá? haha Não que isso não dê residência, ou que não seja a saída de muita gente, mas acho que todos nós temos que trilhar nossos caminhos independentes. Um companheiro acrescenta, e muito, mas não pode ser um objetivo de vida pra se alcançar coisas materiais.

Então planeje estudar algo aqui que esteja na lista de demanda e possa te dar um visto de residência no futuro. Esse ano mesmo a imigração anunciou que entrará na nova lista as profissões de chef (na verdade retornando na lista depois de ter sido retirada há alguns anos), bricklayers e tilers. Claro que essa lista muda todo ano e é difícil saber o que vai ficar ou não, mas dá pra ter uma idéia, o suficiente pra construir um plano de futuro.

Pra quem pensa em vir com visto de sponsor, algumas coisas tem que ser consideradas. O visto de sponsor não dá a estabilidade de um visto de residência. Vc fica vinculado a empresa que te sponsorou e se sair dela tem 30 dias pra arrumar outro sponsor ou sair do país. Também não tem direito a nenhum benefício social do governo, nem mesmo o Medicare, então vc tem que considerar os custos com isso. Realmente ao final de um período vc pode aplicar pra residência, mas não sei como esse processo funciona ou se isso é uma coisa tão “certa” assim. Conheço gente que aplicou, mas também conheço quem não tenha conseguido. Isso tem que ser considerado quando for analisar o salário oferecido. Quando te oferecerem um package (salário anual, incluindo superannuation), vai nesse site pra calcular quanto vc vai receber líquido por mês.

O orçamento mensal varia muito de pessoa pra pessoa, eu publiquei um post sobre isso aqui. Claro que essa é minha opinião pessoal, conheço muita gente que vive com menos e muitas que não conseguem imaginar viver com isso apenas.

Algumas observações sobre salário por essas bandas daqui:

- o salário mínimo aqui na Austrália é de +/- 40k por ano (daqui pra frente, quando eu digo salário de, p.ex., 50k, o "k" significa mil, ou seja 50k = 50.000 dólares por ano. E quando eu digo "package", inclui superannuation – que geralmente é de 9% – mais impostos. O site que eu mencionei acima ajuda a converter o package em valor líquido mensal).

- o salário do australiano médio gira em torno de 60k por ano, package. Acima de 90k é considerado um bom salário.

- quando se fala em salário, varia muuuuiiittoooo de pessoa pra pessoa e de uma área de atuação pra outra. Conheço arquitetos (australianos, by the way) que ganham 60k mesmo com 5 anos de experiência, e acham que o máximo que vão alcançar com 20 anos de experiência será 80k. Enquanto conheço outros que com 5 a 10 anos de experiência já estão ganhando mais de 100k. O mesmo vale para qualquer área: em TI tem muita gente ganhando acima de 100k de salário inicial, mas também tem muita gente com bem menos que isso.

Então cuidado ao comparar salário, tem muitas variantes aí. Tem vários sites na internet com a média de salário por área de atuação, como esse aqui.

Como via geral (ainda que não seja regra), áreas como TI, medicina e advocacia pagam bem mais que as demais. Mas, como eu disse, existe gente muito bem remunerada em outras áreas.


Quem quer vir com qualquer visto que não seja de residência e tiver filhos, tem que considerar também o gasto com educação e saúde, que não é barato. Se mesmo pra residentes as childcares são pagas (e caras), imagina pra quem não tem nenhum benefício do governo.

Minha opinião (super pessoal, o Thiago mesmo discorda, por isso repito: é MINHA opinião): um salário em torno de 55k é bem razoável pra começar a vida por aqui. Se vc for esforçado, um bom profissional, tem muitas chances de em 1 ou 2 anos conseguir um aumento de 50% ou até mesmo 100% (esse último, claro, normalmente trocando de empresa e dependendo da área). Agora, se esse salário for para sustentar o casal, ou filhos, eu já acho que fica bem apertado. Mas - e sempre tem um porém - muita gente consegue sobreviver com isso! E até menos! Então eu repito: isso é muito pessoal.

Outra pergunta do Dyego foi se vale a pena largar um trabalho promissor no Brasil e recomeçar na Austrália. Bom, eu sou suspeita pra falar, pois trabalhava como advogada num escritório, ganhava super bem, tinha uma vida estabilizada, e larguei tudo pra vir pra cá, mesmo sabendo que não ia poder advogar aqui e com isso ganhar um salário equivalente. Ah, e também tinha mais de 30 anos quando vim.

Como comentei nesse post no blog, o primeiro ano foi muito difícil, muito mesmo, principalmente pra mim. Pensei em voltar várias vezes, alguns meses todo dia... rs Mas passados 2 anos e meio acho que foi a melhor decisão que tomei! Estou num emprego ótimo num escritório de advocacia, e se é verdade que não advogo, ganho bem pra trabalhar pouco(e sem estresse!) e poder ter um tempo livre que nunca tive no Brasil. Thiago está no segundo emprego, ganhando mais que o dobro do que quando começou, e no emprego dos sonhos dele. E pra completar estamos esperando nosso primeiro filho (yay!), fizemos muitos amigos (muito mais do que eu esperava), moramos num bairro que amamos, com a vida a dois que sempre sonhamos.

Outra coisa a ser levada em conta é que as coisas aqui acontecem bem mais rápido, o poder de compra é bem maior que no Brasil. Mesmo amigos meus que ainda estão trabalhando como garçom conseguem juntar dinheiro, viajar, comprar um carro. Tem também a vantagem de poder morar num subúrbio mais afastado do centro, economizando com aluguel, e ainda assim ter uma excelente qualidade de vida. Muito diferente de um subúrbio afastado na maioria das capitais brasileiras...

Por fim, uma coisa que eu sempre pensava antes de vir e nos momentos difíceis do começo é: vc sempre vai poder voltar pro Brasil se as coisas não derem certo aqui! Nunca se está velho demais pra recomeçar, apesar da idéia poder soar assustadora. Se vc vier, passar 2 anos trabalhando ainda que remotamente na sua área aqui, e ao final tiver que voltar pro Brasil, vai levar a experiência e a fluência no inglês. Isso com certeza vai te ajudar a se reestruturar e recomeçar.

Dá medo? Sim, muito! É difícil? Sim, muito. Vale a pena? Pra mim valeu e muito. :)

terça-feira, 20 de maio de 2014

O orçamento australiano para o próximo ano e a crise política na Austrália

O blog está as moscas, eu sei… Em minha defesa, esses últimos 2 meses foram bem complicados, de muitas mudanças pessoais e eu confesso que estava sem ânimo nenhum pra nada, e o blog entrou nessa onda de desânimo. Um dia conto aqui o que se passou, mas hoje o assunto vai ser outro.

Há umas 2 semanas foi liberado o orçamento da Austrália para o ano fiscal de 2014-2015 (lembrando que aqui na Austrália o ano fiscal vai de 1 de julho a 31 de junho do ano seguinte). O anúncio foi feito pelo Joe Hockey, que nada mais é do que o Treasurer (tesoureiro) do país. E desde então só se fala nisso por todos os lados!

Primeiro deixa eu contextualizar para os que não conhecem a história política da Austrália. Como todos devem saber, a Austrália é parlamentarista e o equivalente ao nosso presidente é o primeiro-ministro. Não vou entrar nos detalhes sobre a história política da Austrália, primeiro porque eu não sou especialista, segundo porque não quero transformar esse post em um blá blá blá político chato. O que interessa pro que vou falar sobre o orçamento é que durante mais ou menos 7 anos o primeiro-ministro australiano era do Labor Party (partido trabalhista, de centro-esquerda), primeiro representado pelo Kevin Rudd, depois pela Julia Gillard.

Em 2013, saiu vitorioso nas eleições para primeiro-ministro o Tony Abbott, do Liberal Party of Australia (partido liberal, de centro-direita). Eu particularmente nunca gostei do Tony Abbott (e nem vou dizer que é por ele ser centro-direita, hoje não vou entrar na discussão de preferências políticas) por conta do discurso homofóbico dele e a insistência em impor sua visão religiosa quando trata de políticas públicas (o Estado não deveria ser laico??).

Mas enfim, nunca fui fã dele, mas também nunca pesquisei muito sobre suas promessas em termos de política. O que eu sabia era apenas que ele tinha prometido a licença maternidade remunerada (um absurdo a Austrália não ter, mas isso é assunto pra outro post) e uma redução no acolhimento de refugiados (o que também é uma questão complexa e assunto pra outro post). Ambas as promessas ele cumpriu, by the way, mas pelo visto foram as únicas...

Retomando o fio da meada: em pouco menos de 1 ano de governo chegou a hora do Tony Abbott apresentar o orçamento pro próximo ano. E aí toda a popularidade que o elegeu foi por água abaixo... Mesmo quem o apoiava ficou indignado com a extrema dureza do novo orçamento.

Esse site aqui tem um ótimo be-a-bá sobre o orçamento, mas basicamente o que foi decidido foi: corte nos investimentos na saúde e educação; corte no serviço público, na ajuda humanitária, nos benefícios sociais para desempregados, jovens, casais com filhos, pensionistas; corte nos programas indígenas, no programa de refugiados, na concessão pública de TV e rádio; aumento do GST (imposto sobre produtos e serviços), além de um aumento nos impostos para que todos tenham que pagar pela dívida externa australiana.

Aí começa a primeira falácia: no anúncio do orçamento o Joe Hockey fez questão de dizer que TODOS iriam pagar pela dívida externa australiana, inclusive políticos e a classe alta (chamada aqui de high-income earners, pessoas que ganham acima de $180 mil por ano, lembrando que o salário mínimo na Austrália é de cerca de $32 mil por ano, e a média de salários fica em torno de $60 mil por ano). Só que isso é conversa pra boi dormir, claro. Basta uma análise um pouco mais detalhada pra se desmascarar isso:

Quem ganha acima de 180k por ano vai pagar apenas um debt levy (a taxa para pagar a dívida externa australiana) de 2% ao ano (detalhe: apenas sobre o que passar dos 180k) por 3 anos. Já os low-income earners perdem até 10% de seu income anual com o novo orçamento (esse site explica bem isso).

Quer dizer, é aquela máxima do princípio da igualdade: igualdade não é tratar todos de forma igual, e sim tratar de forma igual os iguais e diferente os diferentes. Sim, porque quando o Joe Hockey diz que todos vão pagar a mesma cota, digamos que $5.000 por ano para facilitar a conta, isso tem um impacto absurdamente diferente em uma família que recebe $35 mil por ano e outra que recebe $180 mil! É só fazer as contas, enquanto a primeira arca com cerca de 14% da sua renda, a segunda arca com apenas 2%! Só imbecil não percebe isso!

O fato é que essa taxa aliada ao corte drástico dos benefícios sociais (cota extra para uso do Medicare – o sistema público de saúde -, redução do youth allowance, do seguro desemprego, do auxílio a famílias com filhos e as famílias de pais solteiros, etc etc etc) o impacto será enorme nos pensionistas, nas famílias com filhos pequenos, e muitos outros.

(parentesis: quanto a esse último que mencionei (família com filhos pequenos) o Joe Hockey ainda teve a coragem de dizer que os pais que param de trabalhar para cuidar dos filhos o fazem por escolha, e por isso não podem esperar ter benefícios do governo. Como se fosse viável para os 2 pais trabalharem quando não há childcare suficiente no país! Em alguns bairros a fila de espera para uma vaga em childcare (a famosa creche) pode ser de mais de 1 ano, e quando se consegue vaga é pra no máximo 2 dias da semana (ah, e claro pagando caro, entre $80 e $150 a diária, dependendo do bairro). Como ele espera que ambos os pais trabalhem? Com quem deixar os filhos? Com babá, pagando $20 a hora, sendo que o salário do australiano médio ($60 mil por ano) equivale a pouco menos de $25 a hora? Só pode ser brincadeira...)

A segunda falácia que envolve o orçamento é que a justificativa do Tony Abbott pra esse arrocho extremo nas contas é a “imensa” dívida australiana. Ocorre que, segundo seus opositores, essa desculpa é das mais esfarrapadas, pois a situação fiscal da Austrália está longe de estar em crise. Primeiro porque há denúncias que foi o próprio Coalition (o partido vencedor das últimas eleições, e a colisão que elegeu o Tony Abbott) que dobrou os gastos do governo desde que chegou ao poder em 2013. E o alegado déficit fiscal é por muitos considerado uma falácia, já que o débito da Austrália é de apenas 11% do GDP (gross domestic product, ou produto interno bruto), o terceiro menor entre os países do OECD (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico, também chamada de "Grupo dos Ricos", porque os 34 países participantes produzem juntos mais da metade de toda a riqueza do mundo).

Fora que é curioso como o governo alega estar cashless, mas tem $245 milhões para investir no “school chaplains program” (um benefício que será concedido para as escolas que contratarem chaplains, chapelões na tradução literal, padre na ampla) e promover o ensino religioso nas escolas. Esse exemplo foi só pra mostrar a parte que me irrita da política do Tony Abbott, impondo sua religião como regra no ensino fundamental, mas há outras denúncias de gastos públicos inexplicáveis para um “momento de crise”.

Se a verdade está com o governo e seu discurso alarmista de déficit fiscal, ou com a oposição, cabe a cada um tirar suas conclusões. O que me enerva é ver brasileiros que moram aqui apoiando o novo orçamento com o discurso de que “é justo sim pois vai afetar todo mundo, e o corte de benefício vai ser bom pra acabar com a mamata”. Primeiro que não vai afetar todo mundo igualmente, como já mostrei acima. Quando a segunda parte do discurso, só denota que o cidadão sai do Brasil mas a mentalidade imbecil contra benefício social e a favor da meritocracia não sai dele! É como dizer: “eu ganho um salário bom, tenho uma vida confortável, os que não têm acesso a isso que se explodam”. E nem venha dizer que apoiar benefício social é coisa de comunista/socialista, e essa baboseira toda, pois isso é uma realidade nos países desenvolvidos, inclusive os com governos de direita! Welfare (bem-estar social) é a base de toda sociedade evoluída, isso é incontestável!

O que me consola é saber que essa falta de empatia não está enraizada na sociedade australiana, daí os inúmeros protestos contra o novo orçamento (veja aqui e aqui). Aliás, em recente pesquisa de opinião, 63% dos entrevistados disseram que o novo orcamento nao é justo, 53% pensam que ele é ruim para o país e a taxa de desaprovação do atual governo disparou (separei algumas noticias aqui e aqui).

Enfim, o orçamento ainda não passou no Parlamento, e tendo em vista a enorme desaprovação popular, é possível que a oposição ganhe forca e muitas das medidas sejam vetadas. Cogita-se também o impechment o Tony Abbott pela quebra das promessas que ele fez na corrida eleitoral do ano passado. Aliás, esses dias eu vi um post excelente no facebook sobre isso:



Tenho que confessar que não tenho TV em casa (quer dizer, não tinha, até ontem, finalmente me rendi... rs), não lia jornais australianos com a freqüência que deveria, e só comecei a ler mais por conta do orçamento. Agora, se eu soubesse que a política aqui era tão divertida já tinha me interessado antes! Ontem eu estava vendo alguns vídeos no Youtube sacaneando o Tony Abbott e a sua completa falta de habilidade para discurso político. Quem entender bem inglês pode assistir nesses vídeos, hilários:

http://www.youtube.com/watch?v=MCVP2gvC32U

http://www.youtube.com/watch?v=bGyc08otfYk

http://www.youtube.com/watch?v=V-WqnTrG204

Eu já nunca simpatizei com esse cidadão, como disse no início do post, e agora menos ainda. Vamos combinar, se o cara lança um orçamento super controverso e quebrando a maioria de suas promessas de campanha, o mínimo que pode fazer é se preparar pra responder as críticas! Ao invés disso ele parece um imbecil balbuciando e balançando a cabeça sem dizer nada, que nem aqueles cachorrinhos que de brinquedo que se coloca no carro, saca? haha By the way, me chamou a atenção a forma agressiva e sarcástica com que os jornalistas tratam ele. Não me lembro de jamais ter visto no Brasil um jornalista atacando tão duramente um chefe de governo, em plena entrevista televisionada.

Resumindo o longo post (sorry, o assunto é extenso e eu não cobri nem a metade...): o fato é que uma crise política se instalou na Austrália e ainda dará muito pano pra manga. E praqueles que acham que política é chato e não merece sua atenção, tá na hora de repensar isso. Não resta dúvida que esse novo orçamento vai impactar fortemente a sociedade australiana, e se vc pensa em imigrar pra cá, ou já imigrou, vai impactar vc também, diretamente. Seja vc estudante ou residente.

quarta-feira, 26 de março de 2014

Diferenças entre Brasil e Austrália no dia-a-dia

Nossa, hoje me dei conta que tem quase um mês que não escrevo um post… Essas últimas semanas tem sido super corridas, muito apertado no trabalho (me descobriram de vez como paralegal, adeus ócio...rs), estudos atrasadíssimos, o voluntário que agora me deu 2 livros para estudar e completar, muitas saídas com amigos, enfim, muita coisa boa acontecendo, mas que por outro lado me deixaram na maior correria.

Tenho alguns posts atrasados pra compartilhar, inclusive o balanço dos nossos 2 anos de Austrália (super atrasado, por sinal, quase 2 meses de atraso!), mas hoje vou começar com algo mais leve.

Outro dia me peguei pensando em coisas do cotidiano que faço por aqui e não faria de jeito nenhum no Brasil (mais especificamente no Rio, sei que em outras cidades/estados a situação principalmente da violência deve ser bem mais tranqüila). Essas pequenas coisas, quando somadas, dão um bom retrato da qualidade de vida que se tem por aqui.

Chega de enrolação e vamos a lista:

- não ter alarme no carro

Vira e mexe eu me pego com a chave do carro na mão e pensando que a trava dele é só trava mesmo, não tem alarme. E nem precisaria, nunca ouvi falar de alguém que tenha tido o carro roubado (antes que me corrijam, não estou dizendo que roubos não existam aqui, mas são mais raros). Outra coisa que eu faço muito é deixar a bolsa dentro do carro, com carteira e tudo enquanto estaciono em algum lugar. Quando me lembro que no Rio nem se pode andar de carro com a bolsa no banco pois um ladrão pode quebrar seu vidro e pegar a bolsa, isso aqui parece o paraíso...


- andar com a bolsa aberta na rua

Sim, eu sei que estou relaxada demais no quesito segurança pessoal... Mas vc vê tanta gente fazendo isso, e com a sensação de segurança que a Austrália inspira eu vou relaxando, relaxando... Quase sempre ando de bolsa aberta pelo centro da cidade, no trem, esteja cheio ou não. Shame on me...

Ah, e não sou só eu a maluca não, vejo todos os dias mulheres com as bolsas abertas pelas ruas. Eu que no Rio nem usava algumas bolsas por elas não terem fecho (saca aquelas só com um velcro de leve em cima? Improbitivas pro RJ, claro...), aqui uso e abuso. Não preciso nem dizer que aquela história de andar com a bolsa colada no peito, com o zíper pra frente e segurando bem firme é algo inimaginável por aqui, né? Acho que se eu contar pros australianos eles vão rir e achar que é piada...


- colocar a bolsa no chão do restaurante

Taí algo que sempre me intrigou. Na época em que trabalhava em restaurante achava bizarro essa mania das pessoas de deixar a bolsa no chão, sem supervisão, largada mesmo. Já vi até homens tirando a carteira e o celular do bolso pra sentar na mesa e deixando esses itens no chão embaixo da cadeira! Longe das vistas de qualquer um! Surreal... Por incrível que pareça eu ainda reluto em colocar a bolsa no chão no meio de um bar cheio, ou até mesmo pendurá-la na cadeira (velcro na cadeira nem pensar! Seria outro motivo de piada por aqui...rs). Sim, eu sei que sou meio contraditória, ando com a bolsa aberta no trem cheio mas não desapego no restaurante/bar. Mas quem foi que disse que eu era sã e coerente? haha


- andar mexendo/falando no celular, ou com tablet/laptop no transporte público

Tá ficando meio redundante esse discurso sobre segurança, eu sei, mas é que isso ainda me surpreende. Nada mais normal do que ir pro trabalho no trem/ônibus usando seu iphone/ipad/laptop pra ler, ouvir música, ver o mais recente episódio do seu seriado favorito.
Outro dia eu ouvi dizer que a polícia está querendo multar quem anda na rua mexendo no celular (não sei se já existe lei contra isso ou se querem criar uma), por ser causa de recorrentes acidentes de transito. Devo confessar que vira e mexe faço isso, shame on me again... haha

E isso leva ao próximo item...


- atravessar a rua sem olhar, simplesmente porque é daquelas faixas onde a preferência é dos pedestres ou porque o sinal de pedestre abriu pra vc

Eu acho que prudência nunca fez mal a ninguém, e eu costumo sempre olhar pros dois lados antes de atravessar a rua, mesmo que a preferência seja minha. Mas isso não é regra por aqui...

Pra quem não sabe, sempre que tiver essa placa abaixo, a preferência é do pedestre.



Isso significa que os carros tem que parar obrigatoriamente se um pedestre se aproxima do cruzamento. E eles param! No início eu ficava meio cabreira e esperava o carro parar completamente, o que certamente irritava muitos motoristas, pois muitas vezes eles vem diminuindo bastante a velocidade pra dar tempo do pedestre atravessar, e eram obrigados a parar completamente porque eu estava lá com cara de tacho me certificando que eles iam parar mesmo... rs

Essas placas são o terror para motoristas recém chegados a Austrália de um país como o Brasil onde pouco se respeita o pedestre. O Thiago mesmo já quase matou de susto alguns pedestres quando quase se esqueceu de parar antes da faixa. Principalmente quando vc vai virar a direita/esquerda e a faixa está bem na esquina da rua que vc está virando. Ou seja, dirija sempre com o dobro de cautela e devagar, muito devagar se estiver andando em ruas de bairro, pois as pessoas estão tão acostumadas a atravessar sem olhar, assumindo que os carros vão parar, que não custa muito pra vc atropelar alguém se não respeitar os sinais/faixas de transito.


- ver bicicletas andando na rua junto com os carros

Não estou falando de ciclovia, nem do ciclista andar cortando os carros, estou falando do ciclista andando numa das pistas da rua, como se carro fosse, simplesmente porque a rua não tem ciclovia. E nada de motoristas xingando, buzinando, cortando o ciclista. Tudo flui na mais santa paz, como na foto abaixo que eu tirei num sábado de sol indo pra praia em Manly.



Só lembrando que o mesmo se aplica pra moto, tem que andar como se carro fosse, sem cortar os outros veículos. Talvez por isso aqui quase não se veja moto...

Ah, um detalhe para os ciclistas: aqui é obrigatório o uso do capacete e acho que luz traseira se vc for andar a noite. E também aconselhável fazer um seguro, vai que vc bate numa lamborguini... E acredite, tem muitas por aqui, o nosso antigo vizinho mesmo tinha uma, o Thiago sempre parava o carro com uma distancia enorme dele (que ficava na vaga ao lado) com medo de eu abrir a porta com forca e bater na lamborguini... haha Não sei porque ele tem tanto medo de eu arruinar veículos alheios... Deve ser por isso que não me ensina a dirigir...


- as pessoas acreditam em na sua palavra, sem pedir comprovação a todo momento.

Sabem como é no Brasil, é aquela história de cópia autenticada, mil comprovantes pra isso e praquilo, um parto pra conseguir acessar sua conta do banco, senhas mil, etc. Aqui as coisas são mais simplificadas, a senha do banco é uma só (nada de senha numérica + letras infernais), vc acessa sua conta de qualquer computador (que ódio do Banco do Brasil que bloqueia ad eternum o meu computador pessoal! Mesmo eu baixando mil autenticações, versões do Java, validando senha, etc, ele sempre acha uma forma de me bloquear pra fazer transação online daqui). Não existe autenticação de documento em cartório, aliás nem existe cartório. Quem autentica documento (nos raros casos em que eles são exigidos) é o juiz de paz (um serviço gratuito que vc encontra em qualquer bairro, em diferentes dias e horários, dá pra descobrir onde e que horas no site deles) ou até mesmo qualquer advogado ou médico australiano.

Além disso, as pessoas realmente acreditam no que vc afirma. Um exemplo: outro dia fui no hospital pra um exame mais complexo e o Medicare não cobria, então eles acionaram o meu seguro privado. Só que o seguro privado aqui tem franquia anual caso vc use para hospitais (dependendo da sua cobertura, claro, dá pra ter um sem franquia, mas vc paga mais por mês), tipo quando vc bate o carro e tem que pagar a franquia, saca? Bom, a franquia do meu é $250, que paguei ao hospital e eles repassam ao plano. Pouco mais de 1 mês depois eu fui a outro hospital fazer outro procedimento, e me cobraram a franquia. Eu disse que já tinha pago, e essa franquia paga vale por 1 ano. A moca do hospital disse que o plano não tinha reportado isso pra eles quando ligaram no dia anterior para confirmar o procedimento. Eu estava já esperando ela me pedir cópia do pagamento, ou ligar para o plano pra confirmar, mas não! A resposta dela foi pedir desculpas e refazer meu boleto sem qualquer valor extra a pagar. Eu ainda argumentei que tinha falado com o plano dias antes e eles sabiam que eu tinha pago a franquia (não sei porque ainda estava me explicando! haha) no que ela respondeu: “no worries, deve ter sido um delay no processamento deles, se vc diz que pagou então ta pago”. E eu mais uma vez me surpreendi...

Vou ter que parar por aqui pois minha mesa de trabalho já está empilhada de coisas. Vou tentar voltar ainda essa semana.

domingo, 2 de março de 2014

Wollongong e o templo budista

Esse fim de semana o tempo estava uma bosta, chovendo, esfriando, nem sinal do março de sol e calor que tivemos ano passado. Parece que o outono já chegou com tudo, e eu nem vi passar o verão... Sim, estou bem ranzinza por não ter tido dias suficientes com sol e calor (e sem vento!). Coisas se carioca que morre de saudade de usar short e camiseta e/ou vestido a noite...

Deixando as reclamações de lado, com um fim de semana sem graça e sem muitas opções, resolvemos pegar o carro e dar um passeio. O destino escolhido foi Wollongong, cidade a 46km da nossa casa (80km do centro de Sydney). A cidade é bem conhecida por aqui, de médio porte (quase 300 mil habitantes), com uma grande e respeitada universidade e muitas atrações (pelo menos é o que eles dizem no site da cidade... rs).

Dá pra ir de trem (mais ou menos 1 hora e meia da estação Central) ou de carro, sendo que de carro é interessante ir pela Grand Pacific Drive, uma estrada que vai beirando a costa e passando por diversas praias pelo caminho (uma em especial ainda queremos ir, chama-se Woonona e parece linda).

Como chegamos lá já de tarde, não deu pra fazer muita coisa, só almoçamos com um amigo que está morando lá, depois ele nos levou pra conhecer a universidade - tanto o campus quanto o centro de pesquisa onde ele trabalha, que tem prédios super interessantes e inovadores. Seguem algumas fotos que achei na internet:






O ponto alto do passeio, entretanto, foi a visita ao Nan Tien Temple, um templo budista imenso que fica em Wollongong. Acho que se eu não fosse agnóstica seria facilmente budista, tenho uma grande admiração pela filosofia deles. O templo é um espetáculo, com jardins lindos e super agradável. Infelizmente não podia tirar foto dentro do templo em si, mas no site deles (que coloquei o link no início desse parágrafo) tem fotos do interior, é um espetáculo!

Seguem algumas fotos que eu tirei da parte externa:



Pra finalizar, não resisti ao entrar na lojinha do templo e comprei essa linda caneca de chá chinesa, feita de argila (clay em inglês) e que retém o sabor do chá no decorrer dos anos de uso. Agora estou aqui testando ela com meu chazinho de gengibre e limão... :)

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Primeiros socorros (first aid)

Outro curso que tive que fazer foi o de primeiros socorros. Na verdade o curso se chama “Apply First Aid”, que é o atual nome do curso de primeiros socorros básico.

O curso dura normalmente um dia todo (algumas empresas que dão esse curso fazem em 2 dias). O meu eu fiz com a Australia Wide First Aid, basicamente porque foi o mais barato que eu encontrei. rs Dependendo da empresa, esse curso pode custar entre $75-$150.

É um curso de primeiros socorros básicos, mas como eu nunca tinha feito nada parecido achei o máximo e super completo. Cobre mil assuntos, sendo que o dia é dividido mais ou menos assim: a parte da manhã para CPR (cardiopulmonary resuscitation) e a parte da tarde para primeiros socorros variados.

Não sei se alguém já fez curso de CPR (no Brasil eu nunca vi essa exigência, enquanto aqui todos os profissionais de saúde, de escolas/creches, lar de idosos, fisioterapeutas, policiais, seguranças, etc, tem que fazer), mas é mais difícil do que parece. No curso vc faz num boneco que reproduz a força que vc teria que usar numa situação real. Pra te ajudar a saber se vc está fazendo certo, o boneco faz um clic quando vc pressiona com a força necessária (o que eu rapidamente percebi que era bastante – já ouviram a frase “melhor quebrar a costela da vítima do que não fazer o CPR direito”? Pois é, tenso...). Em 2 minutos de CPR eu já estava suando... Imagino numa situação real, onde a rigor vc tem que fazer até o socorro chegar, o que pode demorar 30 minutos! Tudo bem que dizem que na hora, por conta da adrenalina, vc adquire mais força, eu sinceramente espero nunca ter que descobrir.

Curioso é que vc aprende não só a fazer CPR como a usar um desfibrilador (by the way, essa palavra é um completo trava língua pra mim em inglês – defibrillator – de tanto me enrolar já desisti e falo defib – seu apelido carinhoso... rs). E eu que achava que só profissional de saúde podia usar isso... Mas não, qualquer um com curso de primeiros socorros pode usar, e tem aparelho espalhado por tudo que é lugar (em academias, nas grandes estações de trem, nos estádios de futebol, etc). O desfibrilador em si é portátil e simples de usar, ele vai falando com vc e dando os comandos, inclusive o “afaste-se” pra hora da descarga elétrica. O problema é se vc não conseguir ouvi-lo... Como a história que me contaram no St John de um dia em que foram socorrer uma vítima num show de música e os paramédicos tiveram que fazer o CPR na beira do palco, sem que o cantor parasse o show, ou seja, com a musica tão alta que era impossível ouvir o aparelho desfibrilador.



Detalhe que pra vc receber o certificado tem que passar numa prova que eles dão no final. Tem tanto uma prova prática (de CPR) quanto uma múltipla escolha de primeiros socorros. Como todo curso desse tipo, é quase impossível vc ser reprovado. Na prova escrita se vc errar alguma questão o instrutor te explica de novo e manda vc refazer até acertar. Até porque eles já levam o certificado pronto pra te dar no final, então acho quase impossível alguém ser reprovado.

Ah, tem só mais um detalhe importante: segundo a instrutora que deu o curso, as leis sobre First Aid estão pra mudar esse ano, e com a mudança só vai receber o certificado quem fizer CPR por no mínimo 5 minutos ininterruptos, no chão. Parece fácil, mas não é, a forca que vc tem que usar é grande e o fato de ser no chão já exclui muita gente (na minha turma mesmo tiveram 2 mulheres que pediram pra fazer com o boneco em cima da mesa por conta de problema na coluna).

Agora o mais tenso é fazer o CPR em bebe... Tem um boneco pra isso no curso também, dá um nervoso danado... Fora as recomendações de que não pode assoprar muito forte na boca pra não estourar os pulmões. Recentemente teve um caso de CPR feito em bebe no meio da rua, nos EUA, as fotos rodaram o mundo. Quem não viu, esse é o link da matéria com as fotos.

Além do CPR, o curso engloba vários outros assuntos, como:

- ataques de asma: como usar uma bombinha para dilatação dos brônquios. Curiosidade: aqui essas bombinhas podem estar no kit de primeiros socorros, mesmo que a pessoa que está sofrendo o ataque não tenha/use uma.

- choque anafilático: como administrar uma EPI pen (aquelas canetas com adrenalina pro caso de reação alérgica grave). Fico impressionada como as crianças são alérgicas aqui! Outro dia saiu uma notícia de uma menina que teve uma reação alérgica porque estava brincando com outra criança que tinha comido pão com pasta de amendoim no almoço horas antes!

No curso contaram a história de uma creche em que uma menina ia sempre com sua canetinha de adrenalina por ter uma severa alergia. Aí um dia outra criança, um menino (que até então não se sabia ser alérgica) teve uma reação severa e no desespero a professora usou a caneta da menina no menininho, salvando a vida dele. Eis que alguns minutos depois a menina também teve uma crise, e já não se tinha mais a caneta, pelo que ela acabou morrendo. Claro que os pais processaram a creche, mas fico imaginando o que eu faria na situação da professora... Deixava o menino que teve a primeira crise morrer? Parece que em breve haverá uma lei obrigando as creches/escolas a terem canetas sobressalentes para emergências.

- como tratar cortes, hemorragias e amputações: dentre outros, não fazer torniquete no membro, não colocar membro amputado no gelo sem antes embalar num saco vedado, etc.

- como tratar picadas de cobras, aranhas, águas-vivas: e não, não é pra tentar tirar o veneno, e dependendo do bicho que picou tem instruções diferentes quanto a cobrir ou não, colocar algo como vinagre ou não, etc. Na prática eu sequer sei diferenciar uma aranha da outra, quanto mais me lembrar da orientação pra cada uma.

- queimaduras: não aplicar nada em cima, apenas água fria corrente por 20 minutos.

- 1001 formas de se fazer um torniquete (aqui chamado de sling).

E mais umas trocentas mil coisas que me deixam tensa só de pensar em um dia ter que usar na prática.

Eles falam também da "Good Samaritan Law” (http://en.wikipedia.org/wiki/Good_Samaritan_law), uma lei que protege o leigo que presta primeiros socorros contra processos por unintentional injury or wrongful death (tipo quebrar a costela de alguém ao praticar CPR). O wikipedia explica e compara a lei em diversos paises.

Esse curso tem validade de 3 anos (sendo 1 ano para CPR) e decorrido o prazo vc tem que refazê-lo. Parece bobagem e extorsão de dinheiro, mas na verdade é necessário para se atualizar nas constantes mudanças de diretrizes. Os procedimentos de CPR e como tratar hemorragia nasal, por exemplo, foram reformulados no ano passado e agora orientações diferentes são indicadas.

Resumo da ópera: bem interessante ter todo esse conhecimento, e acho que todo mundo devia fazer esse curso, mas eu espero sinceramente nunca ter que usar nada do que aprendi.

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Working with children check/Police check

Como eu disse no post anterior, na maioria dos trabalhos voluntários o interessado tem que ao menos preencher uma ficha cadastral com seus dados e passar por um treinamento básico.

Só que quando o trabalho envolve de alguma forma contato com crianças e adolescentes, as exigências ficam maiores. A Austrália tem leis super rigorosas para qualquer empresa que trabalhe com crianças, e dizem que não é fácil abrir uma childcare (creche) pela quantidade de exigência legal. Por um lado isso é ótimo, claro, por dar uma proteção maior ao menor de idade, mas por outro causa alguns transtornos como a discussão que se trava no país em razão da escassez de creches e pré-escolas, obrigando a maioria das mães (ou pais) a parar de trabalhar para cuidar dos filhos nos primeiros anos de vida. Mas isso é assunto pra outro post...

Voltando ao assunto da burocracia: se o trabalho voluntário envolver qualquer tipo de contato com menores de 18 anos, pode contar que vc vai ter que obter tanto o Working with children check quanto o Police check. (P.S.: Pode ser que outros tipos de trabalhos tenham essa exigência, se não me engano voluntariado envolvendo idosos e deficientes também exigem o Police check).

O Police check, como o próprio nome já diz, é um documento da Polícia com seu histórico criminal (ou a ausência dele). Ele é pedido não só em alguns trabalhos voluntários, como também em alguns remunerados também, além de todas as vagas para o serviço público (que aqui também não funciona como o funcionalismo público do Brasil, mas isso também é assunto pra outro post).

Normalmente quem dá entrada nesse Police check, ao menos no caso de trabalho voluntário, é a organização pra qual vc vai trabalhar, pois ele é pago. Esse Police check pode ser, ainda, estadual ou nacional. No site do governo australiano tem todas as informações, bem didático.

No voluntariado que eu estou fazendo tive que preencher o formulário requisitando o Police check, que é chatíssimo de preencher! São 4 páginas de dados que vc tem que fornecer, além do 100-Points ID (explicação sobre o que é isso aqui), sendo que num dos itens do questionário pede pra vc listar TODOS os endereços onde residiu nos últimos 5 anos. Bom, só na Austrália eu já morei em 4 lugares diferentes, então imagina meu drama... rs Claro que não coube na folha e tive que continuar numa folha avulsa, que vc assina, data e anexa ao formulário. Sacal...

O outro documento que tive que tirar é o Working with children check, que nada mais é do que um documento do governo atestando que não tem nada de desabonador contra a sua pessoa que te impeça de trabalhar com crianças e adolescentes.

Esse é gratuito para quem vai fazer trabalho voluntário (se for para emprego remunerado, a taxa é $80) e vc mesmo tira online. Basta ir no site que coloquei acima, preencher o formulário e o governo processa o pedido. A parte sacal é que vc faz online, mas tem que ir no RTA (tipo o Detran daqui) pra confirmar sua identidade. Ou seja, levar seu documento pessoal com foto (seja passaporte ou carteira de motorista) e mostrar que vc é vc. Juro que ainda não me acostumei com isso... Fazendo essa prova de identidade, o Working with children check sai rápido, o meu saiu em horas. Ah, mas eles avisam que se vc tiver um nome comum (tipo John Smith) pode demorar até 4 semanas pra sair o resultado pois a base de dados é maior, o que claro que não é o meu caso, com 4 sobrenomes.... haha

O resultado do Working with children check vc recebe por email, que vc imprime e leva na instituição que vc vai prestar o serviço. Com esse papel eles podem entrar online e acessar/checar o seu resultado.

Pelo que eu entendi, a rigor uma condenação criminal não te reprova no Working with children check, depende do que se trata a condenação. A título de curiosidade (Child Protection (Working with Children) Act 2012 No 51 – advogado é foda, eu sei, adora ler uma lei...rs), eis o teor da lei:

Disqualifying offences
1 Specified offences
(1) The following offences are specified:
(a) murder of a child,
(b) manslaughter of a child (other than as a result of a motor vehicle accident),
(c) an offence involving intentional wounding or causing grievous bodily harm to a child by an adult who is more than 3 years older than the victim,
(d) an offence under section 61B, 61C, 61D, 61E or 61F of the Crimes Act 1900,
(e) an offence under section 61I, 61J, 61JA, 61K, 61L, 61M, 61N, 61O or 61P of the Crimes Act 1900,
(f) the common law offence of rape or attempted rape,
(g) an offence under section 65A or 66 of the Crimes Act 1900,
(h) an offence under section 66A, 66B, 66C, 66D, 66EA, 66EB, 66F or 73 of the Crimes Act 1900,
(i) an offence under section 67, 68, 71, 72, 73 (before its substitution by the Crimes Amendment (Sexual Offences) Act 2003), 74 or 76 of the Crimes Act 1900,
(j) an offence under section 78A, 78B or 79 of the Crimes Act 1900,
(k) an offence under section 78H, 78I, 78K, 78L, 78N, 78O, 78Q or 81 of the Crimes Act 1900,
(l) an offence under section 80A, 80D or 80E of the Crimes Act 1900,
(m) an offence under section 86 of the Crimes Act 1900 where the person against whom the offence is committed is a child, except where the person found guilty of the offence was, when the offence was committed or at some earlier time, a parent or carer of the child,
(n) an offence under section 91D, 91E, 91F, 91G or 91H of the Crimes Act 1900 (other than an offence committed by a child prostitute),
(o) an offence under section 42 or 43 of the Crimes Act 1900,
(p) an offence under section 91J, 91K or 91L of the Crimes Act 1900,
(q) an offence under section 21G of the Summary Offences Act 1988 or section 91M of the Crimes Act 1900where the person intended to be observed or filmed was a child,
(r) an offence against section 272.8, 272.10 (if it relates to an underlying offence against section 272.8) or 272.11 of the Criminal Code of the Commonwealth,
(s) an offence against section 272.9, 272.10 (if it relates to an underlying offence against section 272.9), 272.14 or 272.15 of the Criminal Code of the Commonwealth,
(t) an offence against section 272.18, 272.19 or 272.20 of the Criminal Code of the Commonwealth if it relates to another offence listed in this Schedule,
(u) an offence against section 270.6A or 270.7 of the Criminal Code of the Commonwealth where the person against whom the offence is committed is a child,
(v) an offence against section 233BAB of the Customs Act 1901 of the Commonwealth involving items of child pornography or of child abuse material,
(w) an offence against section 471.16, 471.17, 471.19, 471.20 or 471.22 of the Criminal Code of the Commonwealth,
(x) an offence against section 471.24, 471.25 or 471.26 of the Criminal Code of the Commonwealth,
(y) an offence under section 91H, 578B or 578C (2A) of the Crimes Act 1900,
(z) an offence under a law other than a law of New South Wales that, if committed in New South Wales, would be an offence listed in this clause,
(aa) an offence an element of which is an intention to commit an offence of a kind listed in this clause,
(ab) an offence of attempting, or of conspiracy or incitement, to commit an offence of a kind listed in this clause.
(2) This clause applies to convictions or proceedings for offences whether occurring before, on or after the commencement of this clause.


No site que eu indiquei acima tem mil outras informações e fact sheet pra quem for trabalhar com crianças e adolescentes. Lembrando que em muitos lugares vc também é obrigado a fazer um curso de “child protection”, o que é o meu caso e devo fazer o curso daqui a algumas semanas.

Aproveitando o tema, se alguém tiver curiosidade, tem um programa bem interessante do governo australiano chamado “Keep them safe” que tem como objetivo conscientizar tanto as famílias como a sociedade como um todo da necessidade de se melhorar a segurança, bem estar social e individual das crianças e adolescentes. Eles tem um site bem interessante sobre as políticas públicas que vem sendo implementadas sobre o assunto.

Como vcs podem ver, algumas coisas tem bastante burocracia por aqui, mas num sentido bom eu acho, pois são formas de proteção as pessoas em situação de desvantagem que são atendidas por essas organizações (sejam elas crianças, adolescentes, deficientes, idosos, etc).

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Voluntariado na Australia

Eis que resolvi retomar com o trabalho voluntário aqui na Austrália. Já tinha feito uma vez no ano em que cheguei aqui, 2 em eventos específicos no Mardi Gras e outro mais longo, por 3 meses, em que eu ficava no saguão do fórum dando informação para as pessoas sobre as audiências. Mas aí comecei a fazer curso, depois consegui emprego no escritório que estou, e não deu mais tempo de fazer.

Agora, em parte por conta do novo curso que estou fazendo, em parte porque sempre gostei de fazer trabalho voluntário, resolvi retomar.

Primeiro devo esclarecer que achar um trabalho voluntário não é tarefa tão fácil como parece. Muitos fazem uma série de exigências, uma triagem inicial com entrevista, ou tem requisitos específicos (tipo ter carteira de motorista). E praticamente todos dão um treinamento antes de vc realmente começar o trabalho.

O primeiro passo para ser um voluntário é achar um. Os melhores sites na minha opinião para isso são o Seek Volunteer, o Fido, ou o GoVolunteer, mas na minha experiência eles costumam mostrar as mesmas vagas. Vc pode selecionar por área de atuação, por bairro, por tempo de comprometimento exigido, etc. Esse site aqui também tem bastante informação sobre o voluntariado na Austrália, incluindo um passo-a-passo.

Escolhido o trabalho, vc aplica online normalmente pro próprio Seek, onde eles fazem uma triagem e depois te passam o contato do responsável na organização que vc escolheu. Mas as vezes o contato já é direto com a organização.
Tem muitas vagas, mas é fácil notar que algumas áreas da cidade são mais carentes de voluntários que outras. As áreas mais pobres, principalmente no oeste, são as que normalmente tem mais ofertas.

Detalhe importante: voluntariado é muito difundido na sociedade australiana, e pega muito bem no currículo. Além de ser uma excelente oportunidade de vc desenvolver novas habilidades, se envolver com sua comunidade (bairro), treinar o inglês.

No meu caso, como eu trabalho full time, tive que buscar algum que fosse a noite e/ou fim de semana. E na mesma semana que comecei a buscar o St John estava anunciando que precisava de mais voluntários.

Pra quem não conhece, o St John Ambulance é uma organização mundial que presta serviços de primeiros socorros. Como eles descrevem no site da organização: “Active in Australia for over 130 years, St John Ambulance Australia is a self-funding, charitable organisation active in all States and Territories, dedicated to helping people in sickness, distress, suffering or danger. Providing services to a broad scope of the community, St John Ambulance Australia is the country's leading supplier of first aid services and training.

Aqui em Sydney eles se dividem em divisões espalhadas por diversas áreas (South, North, West, etc). A mais próxima de mim é a do sul, cujas reuniões/treinamentos ocorrem no bairro de Woolooware. E funciona um pouco como os escoteiros, no sentido de ter hierarquia, uniformes, broches. A medida que eu for me envolvendo mais conto mais detalhes.

O trabalho dos voluntários consiste em basicamente prestar atendimento de primeiros socorros em eventos espalhados pela cidade, mas existem outras áreas de atuação deles no atendimento a comunidade.

É um voluntariado de longa duração, que eles chamam, pois pedem comprometimento de pelo menos 1 ano. E realmente não tinha como ser menos, pois o treinamento que vc passa até poder estar apto pra realmente atuar nos eventos é longo e demora no mínimo 3 a 6 meses.

Ainda estou no primeiro mês, preenchendo a papelada (imensa!) e participando das reuniões que ocorrem toda terça-feira a noite e duram 2 horas. Quando estiver apta a atuar nos eventos, eles pedem uma disponibilidade de pelo menos um fim de semana por mês pra cobrir as escalas nos eventos, mas tem gente que faz bem mais que isso. Existem desde eventos pequenos, como uma feira escolar até eventos imensos como o City to Gong, uma maratona de bicicleta que vai do centro de Sydney até a cidade de Wollongong, que fica 80km ao sul de Sydney, e mobiliza um aparato enorme de profissionais, dentre médicos, enfermeiros, policiais, agentes de transito, paramédicos, voluntários.

Por enquanto posso dizer que está sendo um desafio imenso, porque todos falam imensamente rápido nas reuniões e com muitos termos técnicos/médicos que me deixam tonta. Por mais que eu até considere o meu inglês bom, meu vocabulário está longe de ser tão vasto, ainda mais na área de saúde. Fora a bruxa que coordena os voluntários que me dá nos nervos. Confesso que algumas semanas eu pensei em desistir, mas não é do meu feitio desistir de desafios. :)

Ainda fico mega tensa só de pensar em atuar sozinha num evento e ter que fazer um atendimento de emergência, mas tento não pensar nisso, um dia de cada vez. rs Fora que se todo mundo ali conseguiu, porque eu não conseguiria? Se bem que alguns dos voluntários são enfermeiros, então já saem na vantagem...

Pra esse post não ficar muito longo, vou deixar pros próximos a sabatina de documentos que muitos voluntariados pedem e o curso de primeiros socorros que tive que fazer. Aguardem as cenas do próximo capítulo. :)

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Aviso aos leitores (2)

Eu tento, de verdade, ajudar todo mundo que tem o sonho de vir morar na Austrália. Acho uma experiência incrível mas ao mesmo tempo muito difícil, e só quem veio sabe os percalços com que nos deparamos, principalmente no início. Eu mesma passei um primeiro ano infernal e senti falta de uma ajuda em muitos momentos. Por esse motivo comecei a escrever no blog, pra tentar ajudar outras pessoas que estão começando nessa jornada.

Nesses 2 anos de Austrália conheci dezenas de pessoas incríveis pelo blog, muitas encontrei pessoalmente e algumas até viraram amigos. Esse retorno, e saber que de alguma forma minhas postagens ajudam outras pessoas é extremamente gratificante.

Por outro lado, como todo blogueiro acabo atraindo muita gente sem noção também, muita gente mal agradecida, e gente mal educada mesmo. (p.s.: isso de forma alguma é uma indireta relacionada com os últimos emails/mensagens que recebi, na verdade o que me motivou a escrever foi um post que li num outro blog de brasileiro vivendo no exterior e fazia tempo que eu queria escrever um post sobre isso)

Eu NUNCA, em tempo algum, ignorei um email ou mensagem no blog que recebi pedindo ajuda. Respondo a todos, mesmo os sem noção, com perguntas genéricas ou os que me irritam profundamente na primeira linha (já explico o que me irrita). E de certa forma respondo até rápido, pois eu detesto deixar pra depois o que posso fazer hoje. Procrastinação definitivamente não é uma das minhas características. Como também não é dizer que estou sem tempo, pois sempre fui da teoria que falta de tempo é uma desculpa que na verdade quer dizer falta de interesse.

Enfim, sempre respondi os emails e tento sinceramente responder da melhor forma possível, sem achismos e desinformação. Só que as vezes confesso que me cansa ser tão solícita e ter que aturar certos emails que me irritam, sendo o principal deles aquele que te escreve achando que vc é serviçal do remetente e sequer agradece depois. Juro, já recebi email que vinha no título: URGENTE e no corpo do email algo como “preciso de informação sobre isso, isso e isso”. Fora um outro surreal que o Thiago recebeu uma vez dizendo: “meu filho (?!?!?) quer se mudar pra Austrália como arquiteto, me diz o que ele tem que fazer pra conseguir o visto”. Dispensa comentários, né?

Outros exemplos que recebo:

1) “Como faço pra aplicar pra residência sendo da profissão x, y ou z?

Por mais que eu queira ajudar, a verdade é que não sei praticamente nada sobre outras profissões. E mesmo a do Thiago, arquiteto, é complicado responder pois não tenho informações atuais. Tudo que o Thiago fez pra validar a profissão ele escreveu no blog, é só ver os posts mais antigos.
Já pra profissão de advogado, tudo o que eu sabia já postei aqui. Infelizmente não sei mais detalhes, não fiz o processo de validação e sequer tenho contato com o direito aqui. Isso porque, apesar de trabalhar num escritório de advocacia, meu escritório não pratica o direito australiano. Então não tenho contato com advogados australianos, não sei como é o mercado, não posso indicar advogado (uma vez me pediram um advogado de família pra indicar, pra tratar de um divórcio) ou muito menos indicar alguém pra vaga alguma.


2) “Como é a vida na Austrália?

Como eu devia responder isso??? To aceitando sugestões... Pra começar que eu não morei em toda cidade/estado da Austrália, então no máximo posso falar de Sydney. Fora que responder a esse tipo de pergunta demandaria escrever um livro em forma de email. Eu sou prolixa, admito, mas nem tanto...rs



3) “Li as informações x, y ou z nos sites que vc indicou, mas não entendo muito bem inglês, vc podia me explicar em português?

Really???? Desculpe, mas se a pessoa não sabe inglês, primeiro tem que aprender se quer aplicar pra uma imigração qualificada. E nem vale a desculpa de que não tem como aprender no Brasil, pois quando pensamos em nos mudar pra Austrália o Thiago falava quase zero de inglês e em menos de um ano de estudo conseguiu tirar a nota mínima do IELTS. Ah, e foi ele quem pesquisou TUDO e aplicou sozinho pro nosso visto, sem ajuda profissional (como agente de imigração). Claro que demandou muita pesquisa, muito foco, muito esforço, mas não é nada sobrenatural ou que qualquer um não possa fazer se se esforçar.

Agora, se a pessoa sequer tem o interesse em ler, aprender, pesquisar (muito), como pode querer imigrar como residente pra outro país???



4) “Qual é o custo de vida na cidade x, y ou z?” ou as variantes: “Como é pra achar apartamento nas cidades x, y ou z?”, “Qual a melhor cidade pra se morar?”.

De novo: eu moro e sempre morei em Sydney (e já escrevi sobre o custo de vida em outro post), não tenho noção de como seja morar em outras cidades. Custo de vida dizem que é mais alto em Sydney, seguido por Melbourne, Brisbane e Perth. Mas não sei mais do que achismo e de ouvir dizer.

Quanto a melhor cidade pra se morar, claro que eu acho Sydney, né, já que escolhi vir pra cá. Mas isso é uma escolha tão pessoal... Tem quem ame a tranqüilidade de Perth, ou o frio de Melbourne (cruzes! rs), ou o aconchego quentinho de Brisbane (minha segunda opção, por sinal). Meu conselho: antes de tomar uma decisão tão definitiva quanto se mudar pra outro país, venha de férias pra Austrália e vá conhecer as principais cidades. Dá pra ter uma boa idéia do que funciona ou não pra vc.

Ah, lembrei de uma variante do item acima: uma vez (há um tempão) recebi um email de uma pessoa dizendo que queria vir passar 3 meses na Austrália. Como não teria dinheiro pra se sustentar, pensou em pedir um visto de trabalho com uma agencia (?!?). E pediu minha opinião sobre se Byron Bay era uma boa escolha pra trabalhar e estudar e se eu podia indicar um local pra essa pessoa ficar. Na maior boa vontade respondi que não existe esse “visto de trabalho” fácil como sugerido, que não dava pra trabalhar com visto de estudante por mais de 20hrs, e que ela devia procurar um agente de imigração. Ainda disse que eu sequer conhecia Byron Bay, mas que as pessoas devem ter em mente que mesmo as grandes cidades da Austrália (Sydney, Brisbane, Melbourne, Perth) não chegam nem perto em termos populacionais das grandes cidades do Brasil (Sydney, a maior cidade, não chega a 5 milhões). Byron Bay então, não tem nem 10.000 habitantes! Fora que esses balneários de praia (como Byron Bay, Gold Coast) ficam cheios na alta estação, mas já ouvi dizer que ficam mais vazios no resto do ano e empregos podem rarear. Enfim, me esforcei pra dar todas as informações que eu podia, dentro do possível. Adivinhem qual foi a resposta? Nenhuma, claro, nem um obrigado.


Tem muito mais absurdos, mas já nem me lembro mais.


Resumo da ópera:

Quem quiser escrever, dividir experiência, dou o maior apoio, adoro receber email de leitores do blog! Também gosto de fazer novas amizades, e nunca me opus a encontrar gente que chegou aqui e ainda tento ajudar como eu posso.

Só peço em contrapartida poucas coisas:


1) “Por favor” e “obrigado” são bem vindos;


2) Se tiver uma dúvida, leia os posts antigos do blog primeiro. Se tiver sem saco de ler tudo, faz uma pesquisa na lupinha simpática que tem no canto superior esquerdo. Não adianta dizer: “li seus posts todos, adoro o blog” e perguntar algo que eu já comentei mil vezes por aqui...


3) Para advogados, infelizmente não sei muito mais sobre a validação da profissão do que já escrevi no blog... Podem perguntar o que quiserem, mas por favor não levem a mal se a resposta for “não sei”. Juro que não é má vontade, é que eu realmente não sei... :(

Também não sei como é o mercado para essa ou aquela área específica do direito, pois como eu disse sequer trabalho com direito australiano.


4) Para aqueles de outras profissões, procurem um agente de imigração ou os órgãos de classe das suas profissões na Austrália se quiserem informações sobre validação da profissão. Se vc abrir a lista da SOL no site da imigração tem ao lado de cada profissão o órgão de classe responsável pela validação. P.ex.: CPA/ICAA/IPA para contadores, AACA para arquitetos, Engineers Australia para engenheiros, etc.

P.S.: Detalhe curioso – o “assessing authority” para “barristers” e “solicitors” é o SLAA. Como eu nunca tinha ouvido essa sigla, joguei no Google pra ver que órgão era. Eis que aparece só páginas do “Sex and Love Addicts Anonymous” na Australia. WTF??? haha

Na verdade SLAA, no contexto certo, significa “State Legal Admissions Authority” e remete aos órgãos estaduais que regulam a profissão de advogado. No caso de NSW, é a Legal Profession Admission Board.


5) Tente ser o mais específico possível na pergunta, vamos combinar que é muito difícil responder coisas genéricas como: “Como é a vida na Austrália” ou “Como faço pra conseguir um visto?” Esse último com o agravante de que a única resposta que a pessoa vai receber será: “Consulte um agente de imigração, eu não posso nem tenho capacidade técnica de dar esse tipo de informação.


6) Não espere que eu sempre responda prontamente. Tá, eu geralmente respondo em no máximo 48hrs, mas isso não significa que a pessoa possa exigir isso no email com frases como: “preciso saber disso urgente”.


7) Não escreva uma mensagem no blog dizendo: “Queria saber algumas informações, vc pode me mandar um email?” Desculpe, não, não posso. Meu email está super acessível no blog, tanto que bastante gente me escreve. Então vamos parar com a preguiça mor e pesquisar um pouquinho. Até porque se não teve sequer a curiosidade/interesse de achar meu email no blog, começou muito mal...


No mais, fiquem a vontade para mandar mensagem/email, trocar experiências, fazer contato quando chegarem na Austrália. Como eu disse, adoro essa troca e já conheci pessoas interessantíssimas assim. :)

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Cidades de praia ao redor de Sydney

No mês de dezembro, com a família do Thiago aqui, resolvemos alugar uma casa perto da praia pra passar uns dias, como fizemos ano passado. Ano passado alugamos em Port Stephens, que fica 2 horas e meia ao norte de Sydney. Como meu escritório não tem recesso de fim de ano, o Thiago foi sozinho com a família e eu só fui no sábado de manhã, de trem, saltando em Newcastle e o Thiago me pegando lá. A cidadezinha é bem bonitinha e idem pra praia principal, mas não consegui aproveitar muito pois ventava horrores. Vejam algumas fotos:









Esse ano alugamos uma casa em Ulladulla, também 2 horas e meia mas ao sul de Sydney. Dessa vez tirei 2 dias de férias e fiquei a viagem toda, 4 dias e 3 noites.

A viagem em si é bem agradável, e como moramos na parte sul da cidade foi mais rápido. Seguindo pelo Royal National Park logo alcançamos a Grand Pacific Drive, com um visual lindíssimo que merece encostar o carro pra umas fotos, como fizemos:




Fizemos uma parada também em Port Kembla, uma cidade portuária, mas paramos rápido só pra tomar um café. :)

Chegando em Ulladulla ficamos num hotel simpático estilo condomínio de casas, o Ulladulla Holiday Village.

A ideia era ir na praia onde tem cangurus soltos, a Pebbly beach, que fica mais 1 hora ao sul de Ulladulla. Só que os malditos cangurus resolveram nos sacanear e não deram as caras! Fiquei com uma raiva! rs Pra não perder a viagem sugeri irmos a Batesman Bay, uma cidadezinha próxima ao sul, pra almoçar e depois tentar voltar de tarde pra “caçar” os cangurus. A minha brilhante ideia deu certo, pois de tarde conseguimos achar 2 míseros cangurus pra sair nas fotos:






O curioso é que apesar deles fizerem soltos, em seu habitat natural, são super dóceis e dá pra chegar perto e até fazer um carinho. Só tem que tomar cuidado com crianças, que costumam ser mais afoitas e com isso podem fazê-los se assustar e reagir. Aliás eu vi isso acontecer nesse dia, um menininho de uns 3 anos foi se aproximar do filhote de canguru e quase levou um coice da mãe. Claro que os pais do menino não estavam nem aí e sequer se deram conta da cena. Sorte que a criança conseguiu se afastar a tempo.

Fomos ainda em Jervis Bay (1 hora ao sul de Ulladulla) pra um passeio. Nesse ponto devo dizer que a viagem foi bem frustrante porque o tempo não colaborou. Todos os dias estavam nublados, não esquentava e chegou a chover! Acho que é pessoal, pois toda viagem de carro que faço o tempo está ruim! Ano passado quando fomos pra Jervis Bay também estava horrível o tempo, idem pra Port Stephens, e agora mais uma vez. Ou São Pedro está de perseguição comigo, ou o tempo aqui realmente é na maioria das vezes ruim pra aproveitar uma praia. Acho que tenho que ir mesmo mais longe, pro estado de Queensland (tipo Cairns, Gold Coast), pra pegar uma prainha decente. rs
As poucas fotos decentes de Jervis Bay:








No balanço geral, eu achei Port Stephens mais bonito, a praia também achei melhor. Quanto a praia pra ver os cangurus, não sei se vale a pena arriscar e os diabinhos não darem as caras. Dizem que vale mais a pena ir pra Morisset, ao norte de Sydney (perto de Newcastle) onde é mais seguro de vê-los e dá pra chegar também de trem (já nessa praia que fomos no sul só de carro, pois é bem isolado). Eu ainda não fui, mas no momento estou meio brigada com os cangurus, então nem tenho mais vontade de ir procurá-los. rs

De todo modo, mais um item da lista de destinos de passeio riscado. :)

domingo, 2 de fevereiro de 2014

Reveillon 2013-2014

Diferente do primeiro ano, em que fomos pro Botanic Gardens assistir os fogos, no Reveillon desse ano que passou resolvemos reservar uma mesa num restaurante com jantar e bebidas liberadas, com a promessa de que teria uma grande varanda pra assistir os fogos.

O restaurante (Bondi Pizza) fica em Bondi Junction, um pouco longe da baía onde saem os fogos, mas achávamos que íamos conseguir ter uma visão geral. Ledo engano...

Pagamos $200 por pessoa, o que achamos um preço justo por um jantar completo (entrada, prato principal e sobremesa) mais bebida alcoólica liberada. Bem melhor que ano passado onde só tivemos uma cestinha de piquenique caída. E já conhecíamos o restaurante e sempre gostei da comida. Só não contava que o serviço nesse dia estaria péssimo! Eram pratos que não chegavam nunca (acabamos ficando sem uma das entradas tamanha a enrolação dos garçons), garçons indo e voltando sem trazer o que pedíamos, bebida pra se conseguir só indo pessoalmente no bar, comida vindo requentada depois de horas de espera, enfim, o caos. E isso porque tinham muitos garçons! Mas eles pareciam todos novatos, ficavam batendo cabeça e não conseguiam dar conta da lotação do local. Nos estressamos tanto, mas tanto, que até atrapalhou a noite. Só conseguimos terminar de comer (mal e porcamente) as 23:30, isso porque chegamos lá as 19:30!

Na hora de ver os fogos, mais uma decepção. Além de estar bem longe, a varanda tinha um imenso vidro que fazia toda e qualquer foto refletir. Fora que estava tão apinhado de gente que eu confesso que até desisti de tentar achar um espacinho. Acabei desistindo e ficando na mesa mesmo, esperando os fogos acabarem.

Temos que pensar seriamente em opções melhores pra esse ano, mas é muito difícil conseguir algo legal que não seja os olhos da cara (ah, saudade de Copacabana...). Estou bem inclinada a ficar em casa e assistir os fogos pela TV. Ops, esqueci que não tenho TV em casa! haha

Seguem as poucas fotos que prestaram:







sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Blue Mountains

Tenho sentido que esse blog tem estado muito político ultimamente... rs É difícil não falar sobre o assunto, pra ser sincera, devido ao grande impacto que ele tem na vida cotidiana.

Mas vou dar uma pausa pra falar em alguns posts sobre os passeios/programas que fizemos nesse verão.

(Verão é maneira de dizer, claro, pois ainda não fui a praia uma única vez! Quando está quente ou é dia de semana ou está ventando horrivelmente (maldito vórtex que tem sobre Sydney!), o que inviabiliza uma ida a praia. Quer dizer, pelo menos para os meus padrões de carioca. rs)

Ainda em dezembro fizemos um passeio para Blue Mountais, nossa segunda vez lá na verdade (a primeira vez está aqui), mas dessa vez levamos a família do Thiago que estava aqui passando férias. Fomos e voltamos no mesmo dia, o que é plenamente possível por serem apenas 2 horas de viagem, mas ficou mais cansativo por termos decidido visitar as cavernas – Jenolan Caves – que ficam a mais 1:30 de viagem.

Ao chegarmos nas cavernas estava lotado! Ficamos um tempão pra conseguir parar o carro. E acabamos descobrindo que pra fazer os passeios guiados por elas tem que reservar com antecedência (nesse site aqui). Até tinha um ou outro passeio disponível, mas são passeios com pelo menos 1 hora de caminhada e minha sogra é ferrenha adepta do sedentarismo...rs Então ficamos de voltar lá com calma, dessa vez só eu e Thiago, para fazer os tours.

Vamos as fotos:


Primeiro paramos em Leura, uma das cidades da região, para tomar café da manhã.









Essa última foto eu fiz questão de tirar com o cara atrás que era simplesmente um dos melhores cantores de rua que eu já vi! Tinha uma voz bem parecida com a do Don McLean (pra quem não está ligando o nome a pessoa, basta assistir esse vídeo de uma de suas músicas mais famosas)


Depois fomos para as cavernas, e o pouco que vimos já era sensacional, imagino o passeio mais detalhado do tour...








Por último paramos no clássico mirante de Blue Mountains para tirar a também clássica foto das Three Sisters.






Dicas pra quem for lá: (i) dá pra ir de trem saindo de Sydney; (ii) mesmo que seja no verão, sempre leve um casaquinho pois a temperatura costuma ser mais baixa que em Sydney (como uma ida a serra, para os cariocas que lêem esse blog. rs); (iii) não precisa de maiores informações pra chegar lá além do Google Maps (o salvador da pátria!), mas em alguns pontos o sinal não pega então é bom salvar os mapas com antecedência. Se bem que nós não fizemos e mesmo assim nos encontramos, é tudo muito bem sinalizado; (iv) da primeira vez que eu fui fiz o passeio de teleférico, o bem turistão mesmo. Sinceramente acho desnecessário, paga-se caro e não acho que valha a pena. A vista das Three Sisters vc consegue ter de graça nesse mirante que fui, e tem muitas trilhas pela região bem mais interessantes que as do tal passeio.

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Carta de parlamentares

Outro dia eu me peguei surpreendida por mais uma situação que me ocorreu aqui.

Eu sou, como sempre fui, ferrenha defensora dos direitos humanos de todos, sendo minoria ou não. Dentre outros itens de flagrante violação dos direitos individuais está a proibição de casamento entre pessoas do mesmo sexo na maioria dos países do mundo. Não entra na minha cabeça como existem pessoas que podem ser contra isso. Eu até entendo quem é contra o aborto (não concordo, mas acho que ainda pode ser considerado válido o argumento de que ser contra o aborto é defender o direito de uma vida ainda no útero da mãe). Agora, ser contra o casamento gay não entra na minha cabeça... Não se está afetando nenhuma terceira parte (como a argumentação do aborto), e não faz o mínimo sentido as argumentações de “defesa da família tradicional” e "comportamento desviante".

Enfim, mas nem vou entrar nessa discussão pois não é o propósito do blog. Só comecei com esse assunto pra explicar que, defendendo essa minha posição, assinei uma petição online há umas semanas atrás em defesa da lei aprovada no ACT (Australian Capital Territory, um dos estados australianos pra quem não sabe). Essa lei durou pouco e já foi derrubada pela Suprema Corte da Austrália sob o fundamento que é inconstitucional pois viola uma lei federal, o Marriage Act 1961 (Cth). Essa lei federal é algo parecido com o que ocorre no Brasil, onde a Constituição Federal define casamento como uma união entre um homem e uma mulher, e com base nisso o casamento gay não é permitido.

Pois bem, assinei essa petição online, onde vc coloca seu nome, endereço e tal, e no site onde assinei (se nao me engano nesse aqui) eles diziam que isso seria levado aos membros do Parlamento. Mas nunca achei que eu receberia um feedback deles!

E não é que recebi? Mais de um até, vejam as cartas abaixo:



Tá, eles só reforçam a posição do governo de ser contra o casamento gay, mas dizem que vão levar a questão para voto entre os membros do Parlamento caso ela seja levantada novamente. O que duvido que seja, ao menos no governo do Tony Abbott (atual primeiro ministro), que é altamente religioso e já mais de uma vez demonstrou sua posição conservadora e contrária ao casamento gay.

De todo modo me surpreendeu o feedback, ao menos passa uma impressão de que eles se importam com a opinião dos eleitores. E olha que nem eleitor aqui eu sou! rs

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Aviso aos leitores

Só um avisinho básico: esse não é um blog de política, nem um palanque para debates de política.

Não gostou do viés "socialista" dos meus posts? Muito simples: não acompanhe o blog, não leia, não perca seu tempo comentando. Porque eu não tenho a mínima paciência para essas discussões rasas de internet, nem vou mudar meus pontos de vista e conceitos com pseudo "lições" de política dadas nos comentários.

Caí no erro de responder um comentário desses, o que eu não faço pois como eu disse esse não é o local. Mas já voltei atrás e excluí todos os comentários sobre o assunto.

E sim, isso aqui é uma ditadura e quem manda sou eu (e o Thiago de vez em quando...rs). :)


P.S.: Os próximos posts serão mais lights e com fotos. Mas já adianto que vira e mexe vou falar de novo sobre assuntos sociais, primeiro porque o assunto sempre me interessou, segundo porque agora estudando community services tenho cada vez mais acesso ao funcionamento dos serviços sociais na Austrália e acho super interessante escrever esses temas. Quem não gostar, fique a vontade pra visitar outro blog, quem sabe o do Diogo Mainardi, do Reinaldo Azevedo, ou de qualquer outro neoliberal americano (redundância das redundâncias, eu sei...rs).

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Existe preconceito na Austrália?

Eu estou pra escrever esse post há séculos, mas nunca me decidia quanto a resposta ao título. Eu sempre achei que a Austrália era um país super aberto a imigrantes e que discriminação/racismo era quase inexistente (ou ao menos infinitamente menor do que se vê na Europa, por exemplo).

Hoje em dia penso um pouco diferente. Com a eleição do Tony Abbott como primeiro ministro no final do ano passado, a discussão sobre imigração se intensificou pois uma das propostas dele era reduzir a entrada de refugiados. Confesso que ainda não li o suficiente sobre as propostas de governo dele, mas me incomoda o fato dele ser de direita e ultra católico. Nada contra nenhuma religião, mas eu acho que o político tem que ser ateu quando estiver exercendo sua função pública, afinal o Estado é laico (ou deveria ser). Então me incomoda o discurso católico e conservador do Abbott misturado com políticas públicas.

Me incomoda também o fortalecimento dos partidos de direita, pois sempre bate aquele receio da radicalização fascista, que infelizmente é o que vem acontecendo em muitos países da Europa (hoje mesmo li esse ótimo texto escrito sobre um rapaz que mora na Franca – clique aqui pra ler).

Voltando ao preconceito na Austrália. Nunca me esqueço de quando ainda estava procurando emprego em escritório, conversando com uma professora do TAFE ela me disse: “ah, vc não vai ter dificuldade de achar algo não, por causa dos seus traços físicos” (querendo dizer, a pele branca e traços que podiam passar por “native australian”). Logo em seguida ela emendou um: “quer dizer, é triste reconhecer isso, mas infelizmente existe preconceito contra algumas nacionalidades”.

E sim, existe mesmo! Principalmente contra indianos e asiáticos (especialmente chineses). Outro dia mesmo alguém me disse que em muitas empresas currículos de pessoas com nome asiático ou indiano nem eram analisados. Tenho uma amiga coreana que também vira e mexe reclama de sofrer preconceito. Idem para um rapaz que conheci com nome Mohammed (e olha que ele nasceu na Austrália, mas a família é de descendência libanesa).

Outro ponto que me chama atenção são as recorrentes reportagens no jornal (como essa aqui) sobre atos discriminatórios contra imigrantes pela cidade. A maioria contra asiáticos, mas já ocorreram casos contra franceses também e com certeza com outras nacionalidades. Eu me lembro de algumas vezes, principalmente quando cheguei aqui, estar no ônibus tarde da noite e um grupo de adolescentes ficar zombando daqueles que não compreendiam o que eles diziam e não falavam um inglês fluente (inclusive eu).

O Thiago também já ouviu algumas vezes no trabalho dele comentários discriminatórios como os que exaltam os australianos “puros” (o que, aliás, é raríssimo por aqui, pois uma enorme porcentagens dos australianos tem descendência estrangeira. No escritório do Thiago mesmo não devem ter nem 5 “native australians”, o grosso dos funcionários é imigrante ou descendente direto de imigrantes).

Sempre achei isso um caso isolado, mas começo a perceber que é mais comum do que parece. Ainda mais se vc está em bairros mais segregacionistas, como o que estou agora. Em bairros onde a população de estrangeiros é maior, como Bondi, ou bairros de maioria árabe ou chinesa, claro que a aceitação é maior. Mas em bairros de “maioria australiana” já escutei histórias de crianças discriminadas na escola, por exemplo, se tem a pele mais escura ou ascendência asiática.

O fato é que enquanto vc anda só com brasileiros ou imigrantes fica difícil perceber o preconceito. Mas quando vc começa a se relacionar com australianos, começa a perceber essas pequenas coisas. Claro que não é no nível que ocorre em muitos países da Europa, e como eu disse as leis contra discriminação, racismo e qualquer tipo de preconceito são fortíssimas por aqui, mas isso não significa que no fundo os australianos não se ressintam da presença dos estrangeiros, que tomam postos importantes no mercado de trabalho e recebem benefícios sociais. Outro fato que tem gerado muito ressentimento é o mercado imobiliário estar sendo tomado por imigrantes asiáticos. Já ouvi muitos comentários discriminatórios quanto a isso, e quanto a necessidade de se frear a imigração asiática. O pior é ouvir isso até de brasileiros, que reclamam que “na Austrália só tem chinês” (o que, além de generalista com a população asiática, é extremamente discriminatório na minha opinião), reclamam de colombianos (como já comentei aqui), falam mal de indianos que tem um péssimo inglês (detalhe que os indianos são em sua maioria fluentes em inglês, o que eles tem é um forte sotaque, mas que brasileiro também não tem?). Aliás, me irrita profundamente ver um imigrante (seja brasileiro ou de qualquer outra nacionalidade) discriminando outro imigrante, generalizando culturas e taxando outras nacionalidades disso ou daquilo. É uma falta de empatia e bom senso tocante!

Outro ponto é que eu que sempre achei a Austrália menos machista que o Brasil, me surpreendi ontem ao ler uma reportagem sobre uma camisa feminina lançada pra comemoração do “Australian Day” onde se lê: “Property of na aussie boy” (propriedade de um rapaz australiano) e ver os comentários na reportagem dizendo que “a camisa não é sexista”, “se vc não se sente suficientemente conectado ao seu namorado pra usar essa camisa com orgulho, simplesmente não compre”, “quanto mimmimi por causa de uma simples camisa”, “banir a camisa seria uma violação a liberdade de expressão”, “todo mundo se ofende com tudo nos dias de hoje” e o clássico: “relaxem, é só uma piada!” (reportagem e comentários aqui).

É, parece que mesmo os países desenvolvidos não são tão desenvolvidos assim quanto se trata de direitos humanos das minorias... Triste esse mundo em que vivemos...