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quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

Novas informações para advogados – como validar o diploma de direito na Austrália

Já fiz muitos posts sobre a área jurídica aqui na Austrália (pra facilitar, todos os links estão consolidados nesse post aqui). Mas sempre que recebo uma informação nova gosto de compartilhar com quem busca esse caminho tão árduo.

Essa semana encontrei uma advogada brasileira que está fazendo o processo de validação do diploma aqui em Sydney e me conheceu a partir do blog. Nos encontramos pra um almoço e no fim acho que mais perguntei do que respondi. haha É que até hoje ainda não havia conversado com ninguém que veio como estudante e estivesse efetivamente fazendo o processo de validação do diploma, então aproveitei pra me atualizar nas informações sobre o assunto. (Mariana, se vc estiver lendo esse post, obrigada pelas informações! Tenho certeza que vc tem tudo pra alcançar seus objetivos e ser uma excelente advogada aqui em down under!)

Aproveitei também que eu mesma tenho pensado ultimamente em começar o processo de validação do meu diploma, e um obstáculo que me corroía era pensar em ter que traduzir todas as ementas da faculdade, gastando algumas centenas de dólares nisso.

Bom, juntando as informações que a Mariana me passou e uma pesquisa que fiz no site da Legal ProfessionAdmission Board, cheguei no seguinte passo a passo para advogados em NSW:



Algumas observações/explicações sobre o passo a passo acima:

1) Primeiramente, vale a pena começar lendo integralmente o “Guide for applicants for admission as a lawyer in NSW”. Na seção 5 desse guia tem o passo a passo para um advogado estrangeiro. Os documentos solicitados para um advogado estrangeiro são:

·         “original or notarised transcript of academic record in law;

·         original or notarised transcript of practical training course;

·         evidence of your admission as a lawyer (an original certificate from the admitting authority;

·         a copy of your up-to-date curriculum vitae, including details of your practice as a lawyer.”

Ou seja, as ementas não estão entre os documentos necessários. Eu acho que vale a pena acrescentar também o histórico de qualquer pós graduação e/ou mestrado feito, pois vai que alguma matéria desse curso conta.

2) Com tudo em mãos vc preenche o Form 16, anexa a documentação acima e paga a taxa (atualmente AUD$260).

No meu caso, eu acho que tentaria também aplicar pra exemption do PLT (prática jurídica) usando o Form 17, pois primeiro que tenho mais de 5 anos de experiência como advogada no Brasil, segundo que já trabalho como paralegal aqui na Austrália e, segundo uma colega paralegal no meu escritório que se formou agora, ela conseguiu a e exemption usando a experiência aqui no escritório.

De todo modo, ainda que sua experiência seja apenas no Brasil, acho que vale a pena conversar com a LPAB pra ver se seu caso se aplicaria a essa exemption.

3) Segundo a Mariana, a LPAB deu a ela 3 opções de instituições para fazer as matérias complementares (13 matérias no caso dela): University of Sydney, UTS (University of Technology, Sydney) e a própria LPAB.

Aí tem uma pegadinha: se vc é advogado e vem pra cá sozinho, precisa de um visto válido pra fazer esse processo de validação, certo? Nesse caso o único visto viável seria o de estudante. Ocorre que a LPAB não tem o registro necessário para conceder visto de estudante, então por ela vc não conseguiria o visto. Assim, as opções seriam University of Sydney e a UTS. Ambas possuem um curso (Juris Doctor) moldado justamente para estudantes internacionais que buscam a validação do diploma junto a LPAB. Assim esse curso irá conter basicamente apenas as matérias que a LPAB mandou vc estudar. Segundo o site da UTS, esse curso tem duração de 3 anos full time e depois o estudante deverá ainda fazer o PLT. Quanto ao preço do curso, para estudantes internacionais fica em torno de AUD$30.000 por ano.

Lembrando que esses valores são para o visto de estudante. Se vc tem o visto de residência, esses valores caem e muito! Fora que com o visto de residência vc pode fazer essas matérias diretamente através da LPAB, sendo que pela tabela de taxas do site deles eu entendi que cada matéria custaria AUD$748.

4) Para requerer a admissão como advogado, tem que preencher o Form 11 e pagar a taxa correspondente (AUD$900). Detalhe importante - para essa etapa vc precisa provar proficiência em inglês com as seguintes notas mínimas no IELTS:

Listening 7.0 / Reading 7.0 / Writing 8.0 / Speaking 7.5 / Aggregate 8.0

Nesse formulário vc tem que juntar também diversos certificados solicitados de antecedentes criminais e boas condutas, responder um questionário e anexar 2 referências de caráter por escrito.

Pelo que eu entendi, essa admissão como advogado já te qualificaria como solicitor em NSW. Se vc quiser ser barrister (que atua em tribunais), vc terá que prosseguir com estudos junto a NSW Bar Association.

5) Esse “Practising Certificate” é solicitado junto a Law Society.

Para quem está com o visto de estudante, a Mariana me comentou que após esse curso da UTS ou da Universidade de Sydney vc tem o prazo de 2 anos pra conseguir um emprego que te dê sponsor (pelo que entendi esse curso seria equivalente a um Master), que futuramente poderia ser convertido em um visto de residência. Ou seja, para advogados brasileiros o caminho teria que passar pela “sorte” de conseguir um sponsor. Isso porque apesar de solicitor e barrister estar na lista de demanda, vc não consegue aplicar pro skilled visa sem ser admitido na profissão e ter experiencia profissional, o que me parece inviável para advogados estrangeiros como já falei nesse outro post aqui.

 

Ou seja, o caminho é árduo e o futuro incerto para advogados que pretendem validar o diploma aqui e não tem condições de vir com outro visto que não o de estudante. Se vc tem outro visto (como de partner ou residente), o caminho não deixa de ser longo e árduo, mas ao menos o futuro será mais certo. ;)

Se alguém tiver informações adicionais ou já tiver terminado esse processo de validação do diploma de advogado, pode me mandar um relato que ficaria muito feliz em ler e publicar aqui no blog.

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

Passo a passo para conseguir um emprego na área jurídica em Sydney (parte II)

Continuando o post anterior, uma vez vc tendo seu currículo e cover letter prontos comece a mandá-los para todas as vagas que puder. Esqueci de dizer que além do Seek, que comentei no post anterior, vc pode também mandar seu currículo direto para os recruiters e para os escritórios de advocacia. Eu fiz pouco isso pois sinceramente acho meio complicado mandar currículo genérico sem saber a vaga que eles tem em aberto. Eu sempre acho que esse tipo de abordagem faz seu currículo cair num buraco negro e ninguém vai guardá-lo pra quando uma vaga abrir. A não ser que vc dê a sorte de mandar justamente pra uma empresa que esteja contratando naquele momento pra uma vaga em que vc se encaixe, mas aí essa vaga vai também estar sendo anunciada no Seek e é melhor vc responder ao anúncio pois vai poder moldar seu currículo as especificidades da vaga. Se ainda assim vc quiser mandar, uma empresa de recruiter que eu sugiro é a People2People porque quando fiz entrevista lá o recruiter me comentou que eles tem muitas vagas temporárias e costumam entrevistar e encaminhar muitos advogados estrangeiros. Até hoje eu recebo email e sms deles com vagas temporárias que precisam de gente urgente. Ah, tem gente que sugere também ir pessoalmente nos escritórios/empresa deixar currículo. Eu sinceramente acho isso coisa de stalker, haha, e odiava quando faziam isso no escritório que eu trabalhei no Brasil. Mas já ouvi gente aqui que jura que dá resultado, então siga o que vc acha melhor.

Voltando ao passo a passo para conseguir um emprego:

3) A entrevista por telefone. Com um pouco de sorte e paciência, vc será chamado pra uma entrevista. Normalmente o que acontece primeiro é o RH/recruiter te ligar para checar seu nível de inglês e repassar sua experiência, fazendo uma mini entrevista por telefone. Aqui vai uma dica: procure sempre dizer que vc não pode falar no momento (porque está no trem, na rua com barulho, ou qualquer desculpa parecida) e peça para retornar em seguida. Por que? Imagina que vc mandou 20 currículos num dia. Aí te liga um cidadão falando mega rápido no intrincado sotaque australiano e dizendo que o nome dele é x, ele trabalha pra empresa y e perguntando se vc pode conversar sobre a vaga. O que vc entende? Bla bla bla bla + vaga = pânico. Quais as chances de vc, recém chegado aqui, ainda inseguro no seu inglês, entender 100% quem é a pessoa do outro lado da linha, lembrar qual é a vaga assim de cara e lembrar que currículo adaptado vc mandou pra essa empresa? Quase zero. Então a dica que me deram no curso que fiz aqui pra conseguir emprego foi: dê uma desculpa e peça pra retornar em seguida, nem que seja em 10 minutos, pra dar tempo de vc se recompor, checar nos seus emails que currículo vc mandou pra essa empresa e se preparar para a entrevista por telefone.

Essa dica é ótima e certamente deveria ser adotada sempre. Agora pergunta quantas vezes eu segui? Nenhuma! haha  Eu ficava tão empolgada de estarem me ligando e com medo de perder a oportunidade se pedisse pra retornar que acabava sempre dizendo: sim, claro que posso falar agora. Resultado: perdi oportunidade assim. Uma vez a mulher do RH de uma empresa me ligou, pediu pra eu contar minha experiência, eu comecei a falar meio genérico pois sequer tinha entendido de que empresa ela era, e quando eu terminei ela disse: desculpe, mas vc não se encaixa no perfil que estamos buscando, achei que vc tinha uma experiência mais específica na área corporativa. Certamente se eu soubesse com quem estava falando teria me preparado melhor. Então não cometam a mesma burrice minha e pode pedir sem medo pra retornar depois. Só peguem muito bem os detalhes de quem te ligou, claro.

Aqui entra outra questão: nossa insegurança com o inglês. É super normal que vc chegue aqui e se sinta inseguro com seu inglês, eu mesmo tendo tirado 8 no IELTS e gabaritado o “listening” da prova, sempre achei que meu inglês não era suficiente. E eu morria de medo de reconhecer que eu não tinha entendido algo que me diziam, então fingia que entendia, o que claro era bem pior. Imagina vc ter que retornar uma ligação sem saber o nome de quem te ligou! Meu conselho é: não tenha medo de pedir pra pessoa repetir o nome ou onde trabalha! Até os australianos fazem isso, pois vamos convir que quando vc atende uma ligação e a pessoa desanda a falar o nome, de onde é e o que quer, em 5 minutos de conversa vc mal vai lembrar o início da conversa onde ela se apresentou.

Simulando uma ligação de um recruiter, vc poderia dizer algo assim:

Recruiter: - Hi, may I speak with (seu nome) please?
Vc: - (seu nome) speaking.
Recruiter: – Hi (seu nome), how are you? My name is x, I work for y, we received your CV and I was wondering if we could have a quick chat about the position w and your experience.
Vc: - Of course we can, but I am in the train at the moment and it is a bit loud, is it ok if I call you back in about 10 minutes?
Recruiter: - Yes, sure.
Vc: - I am sorry, but could you please repeat your name and company again? The call isn’t very clear.
Recruiter: - Of course, my name is x and I work for y.
Vc: - Perfect, I will call you back shortly. (levando em conta que o número da pessoa apareceu no seu celular. Caso negativo não custa pedir, ou se vc estiver muito inseguro sempre dá pra pesquisar o telefone geral da empresa no Google, vc só vai perder a chance de conseguir o telefone direto da pessoa)

Aí vc vai nos seus emails, checa a vaga, vê o currículo que vc mandou, respire fundo e liga de novo:

Vc: - Hi, may I speak with x (nome do recruiter), please?
Recruiter: - Speaking.
Vc: - Oh, hi x, my name is (seu nome) and I am returning your call to discuss my application to the (nome da vaga) position.

E aí vc faz uma mini entrevista por telefone, que normalmente não dura mais de 10 minutos e serve mesmo pra pessoa confirmar seu nível de inglês e sua experiência naquela área. Das entrevistas que fiz com recruiters por telefone, em quase todas eles me chamaram pra uma entrevista em pessoa (com exceção daquela que narrei acima em que me confundi quanto a vaga em questão).

Aqui um detalhe: se te chamarem pra uma entrevista em pessoa, tenha certeza de que entendeu todos os dados quanto ao dia e local e não hesite em pedir que a pessoa repita se vc não entendeu. Na maioria das vezes o recruiter vai te mandar um email com os detalhes da entrevista pessoalmente, e se ele disser que vai te mandar esse email e em 24hrs vc não receber, pode ligar perguntando (vai que caiu na caixa de spam ou ele esqueceu de mandar).

4) A entrevista pessoalmente. Chegou o grande dia da entrevista frente a frente e vc está apavorado. Eu pelo menos estava… haha É super normal ficarmos nervosos com qualquer entrevista, imagina uma num país diferente e toda em inglês, pra uma função que vc nunca trabalhou e tem pouca ideia de como funciona na prática. Aqui vou dar algumas dicas, mas a verdade é que vc só vai aprender na prática e com seus erros. Vc pode dar sorte de conseguir algo logo de cara, ou pode precisar de mais tempo para se aprimorar. Eu nas minhas primeiras entrevistas que fiz era uma múmia, só respondia o que era perguntado e quase implorava pela vaga dizendo que eu topava fazer tudo. haha  Aos poucos fui me soltando e no fim já estava até contando piada em inglês. Mas mesmo vc achando que foi bem, se prepare para decepções. Uma vez fiz uma entrevista num escritório que amei: passei pelo RH deles, me chamaram para a entrevista com o sócio e foi ótima, achei que tinha me saído super bem, rimos juntos, ele pareceu super impressionado com a minha experiência, até chamou o outro sócio para me apresentar, enfim, saí de lá achando que tinha conseguido. Pergunta se algum dia me ligaram? Teve ainda uma outra vez que uma recruiter me amou e me encaminhou pra um escritório também com uma vaga ótima, exatamente o que eu queria. A entrevista foi maravilhosa, e quando saí a recruiter me ligou pra dizer que a advogada tinha ligado pra ela e dito que eu era exatamente quem eles procuravam e que eles tinham me adorado. Achei que tava certo, mas no dia seguinte a recruiter me avisa que eles decidiram promover alguém interno pra vaga e não iam me contratar. Imagina o balde de água fria! Mas essa experiência foi ótima porque com o feedback que a recruiter recebeu da empresa eu caí nas graças dela e ela queria me indicar pra toda vaga que aparecesse. E nada melhor do que cair nas graças de recruiter! Eu costumava odiar eles porque nunca me retornavam, haha, mas no fim quando caí nas graças de uns 3, foram eles que me encaminhavam pras vagas mais promissoras. Isso porque quando vc é selecionado diretamente pelo escritório/empresa, são dezenas de pessoas que eles estão entrevistando. Já quando vc vai recomendado por um recruiter, o escritório/empresa vai entrevistar no máximo 2-3 pessoas porque a ideia é justamente que o recruiter faça o filtro pra eles.

Chega de enrolação e vamos as dicas:

- seja pontual (sempre!). Se isso já é uma regra pra qualquer entrevista, mesmo no Brasil, aqui na Austrália então é fundamental. E nem adianta a desculpa de que pegou trânsito, o trem atrasou, etc, o mínimo que se espera aqui é que vc preveja esses imprevistos. Então se programe pra chegar no local uns 30 minutos antes, pare para tomar um café pra relaxar e chegue ao local marcado no máximo 5 minutos antes (chegar com muita antecedência também pega mal).

- não preciso nem dizer que tem que se vestir de forma adequada, né? Eu ficava na dúvida quanto ao grau de formalidade local, então na dúvida ia com uma calça social, camisa social e um blazer ou um vestido social e meia calça. Não precisa de salto alto pras mulheres, e acredito que pros homens não precise de terno, basta calça e camisa social (e talvez um blazer), mas na dúvida eu se fosse homem iria de terno já que o meio jurídico é sempre mais formal.

- sorria e faça contato visual.

- a abertura da entrevista é sempre uma conversinha fiada, normalmente sobre o tempo, ou como foi seu fim de semana. Então esteja preparado pra esse tipo de pergunta e pra manter esse tipo de papo furado por alguns minutos. Eu virei especialista nisso, Thiago vive me sacaneando que eu fico de papo furado com todo mundo, do motorista do onibus ao vizinho.

- se a entrevista for com um recruiter, pode contar que vai ter um teste de Word, Excel (e as vezes Power Point) e typing (não sei se é padrão, mas todos os recruiters que fui fizeram). O teste de Word/Excel é basicamente pra ver o quanto vc sabe desses programas e costuma ser bem fácil. Só tive dificuldade uma vez porque aparecia a pergunta e eu tinha que clicar direto na aba correta senão perdia o ponto da questão e eu sou péssima em saber a aba certa de cabeça, vou fuçando até achar o que quero, ainda mais porque uso diversos tipos de Windows e Mac. Ah, o recruiter pode te perguntar em que versão do Windows vc quer fazer o teste, pra mim dava no mesmo porque não sabia de cor nenhuma. haha O teste de typing é um pouco mais difícil porque eles querem checar sua velocidade de digitação. Vc vai ver que muitas vagas (principalmente de legal secretary) pedem especificamente uma velocidade x de digitação. Eu achava que era super rápida digitando e ia tirar de letra. Tolinha! Fui fazer um teste online e minha velocidade mal chegava a 55 wpm (words per minute) sendo que muitas vagas pedem 80 wpm! Mas no geral 60 wpm é o mínimo, e vc só alcança uma velocidade maior que isso se digitar com os “dedos” corretos, o que pouca gente faz (a não ser que vc tenha feito curso de digitação). Então se a vaga pedir isso, testa sua velocidade em casa (tem vários sites como esse aqui) e treina pra melhorá-la, se for o caso. Eu, mesmo com treino (no curso do TAFE tínhamos aula de typing também), nunca consegui passar muito de 65wpm, e isso nunca me atrapalhou nas entrevistas.

- prepare o que vc vai falar sobre a sua experiência profissional, dando exemplos concretos que se adeqúem a função que vc está aplicando. Repito o que eu disse no post anterior: não adianta dizer que vc era o bambambam do contencioso/tributário no Brasil se vc está aplicando pra uma vaga de suporte. Muitos entrevistadores vão te perguntar sobre uma situação x que vc encontrou no seu emprego anterior e como vc resolveu. Prepare algumas situações que se adeqúem a várias qualidades (teamplayer, multitask, deadline oriented) para vc poder usar. Exemplo: se te perguntarem um exemplo na sua experiência profissional que mostre sua habilidade de ser teamplayer. Vc pode dizer que trabalhou no projeto y que era muito desafiador e complexo, o prazo se aproximava e vc percebeu que não daria conta de cumpri-lo. Então vc foi conversar com seu chefe, negociou um prazo adicional e pediu ajuda de um colega, delegando tarefas. Só aí vc já respondeu o exemplo de teamplayer e ainda mostrou que não tem receio de pedir ajuda quando necessário, sabe negociar prazos complexos, etc. Eu achava isso tudo meio sacal e bobo, até porque fazia mais de 10 anos que eu não fazia uma entrevista de emprego. Nem sei se é assim que funciona no Brasil, mas aqui eles são bem metódicos e adoram um exemplo prático. Ainda mais pra essas vagas de suporte que são mais mecânicas. Mas claro que isso não é regra, na entrevista com meu chefe atual, que é americano, ele não perguntou nada disso e foi mais uma conversa genérica e eu até sacaneei ele, sem me dar conta na hora. haha  Explico: ele quando viu que eu era brasileira disse que o nome de uma das filhas dele era um nome brasileiro, disse qual era e eu, na maior espontaneidade: sinto te dizer que esse nome não tem nada de brasileiro.  haha  Ele riu e ainda tentou dizer que era sim, que era de uma modelo brasileira, e eu: ahhhh, sim, realmente tem uma modelo com esse nome, mas porque a família dela é italiana, porque o nome em si de brasileiro não tem nada. Pra completar quando terminou a entrevista ele perguntou se eu queria que ele me levasse pra conhecer o escritório e eu respondi: "não precisa, vou conhecer quando começar a trabalhar aqui". Juro que não sei de onde tirei essa ousadia e gaiatice toda, ainda mais eu que travava com qualquer piada em inglês. Mas acreditem: melhora com o tempo. No inicio quando comecei aqui no escritório eu morria de medo das conversas com esse sócio porque ele fazia piadas irónicas que eu nunca entendia (ah, os americanos). Hoje em dia até sacaneio ele, como no outro dia que o vi bebendo o segundo copo grande de café no dia (que aqui na verdade é uma dose de café expresso e 500ml de leite) e disse que ele bebia mais leite que o meu bb. E ele responde rindo: “get off my feet”. haha

- prepare algumas perguntas para o entrevistador. Na maioria das vezes quem está te entrevistando vai começar a entrevista falando sobre a vaga, a empresa e vai te dar muita informação e no fim quando te perguntarem se vc tem alguma pergunta vc se pega sem ideia e diz que não tem nada a perguntar. Só que isso cai mal, e acredite, vc sempre tem coisa a perguntar! Desde como é o trabalho em equipe na empresa, a progressão de cargos, quando vc pode esperar uma resposta do processo seletivo e mil coisas que eu já nem lembro mais mas com certeza o Google está aí pra te ajudar com mil ideias. ;)  Só cuidado, claro, pra não soar pedante ou demonstrar que vc não está interessado na vaga em si, que ela é só um trampolim para algo maior e daí cair na questão de vc ser “overqualified”. E também não vale bombardear o entrevistador com mil perguntas, uma ou no máximo duas já são mais do que suficientes.


- termine dizendo sempre algo como: “it was a pleasure to meet you and I look forward to hearing from you”.

No próximo capítulo dessa novela eu vou concluir com o que acontece quando vc recebe uma proposta de emprego, o que dizer quando te perguntam sobre sua pretensão salarial, etc.





P.S.: Esse post e o próximo é basicamente pra quem tem visto de residência. Nada impede que com outro visto vc consiga uma vaga nessa área, mas tenha em mente que vai ser beeemmm mais difícil.

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Passo a passo para conseguir um emprego na área jurídica em Sydney

Recebo muitos emails de advogados perguntando sobre como conseguir um emprego na área aqui em Sydney. Por “emprego na área” leia-se posições de supoerte como paralegal, legal assistant e legal secretary, pois a não ser que vc valide seu diploma por aqui, vc não poderá atuar como advogado.

Já fiz diversos posts sobre o mercado na Austrália para advogados (aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e por favor leia também esse post aqui), mas ainda recebo muitas perguntas sobre como é o passo a passo pra conseguir um emprego na área jurídica. Atendendo a pedidos, aqui está:

1) Monte seu currículo e sua cover letter básicos (digo básicos porque vc vai ter que adaptá-los para cada vaga que mandar)

Quanto a cover letter, nada mais é do que uma carta de apresentação sua. Eu achava que ela devia resumir o currículo, mas depois fui adaptando pra algo bem curto e em bullet points focando no vaga. Tipo: se a vaga pedia alguém “teamplayer” eu colocava na cover letter que eu era teamplayer porque trabalhei em sistema de cooperação com uma equipe de x pessoas sempre em harmonia. E assim por diante. Dá um enorme trabalho fazer uma cover letter para cada vaga, por isso que eu digo que só arrumei emprego quando larguei todos os meus 4 (sim, 4!) empregos como garconete e babá, que me consumiam fisicamente e tomavam muito do meu tempo. Já falei mais sobre cover letter nesse post aqui.

Tenha em mente que vc estará aplicando para uma posição inferior ao que vc fazia no Brasil. Então não adianta nada vc dizer no currículo que coordenava um cliente, era o bambambam do contencioso/tributário/etc se vc almeja uma vaga de secretária ou paralegal. Um currículo muito pomposo só vai fazer vc ser considerado “overqualified” logo de cara e ter seu currículo descartado.

Eu quando cheguei me recusava a cortar minha longa experiência de quase 10 anos no contencioso, e todas as coisas que eu alcancei na minha carreira. Até conversei com um conhecido australiano que é advogado aqui, ele revisou meu currículo, ficou impressionado com a minha experiência e até encaminhou meu currículo para o responsável do RH do grande escritório que ele trabalhava. Deu em que? Nada! Não me chamaram nem pra uma entrevista porque na maioria das vezes QI não significa nada por essas bandas se vc não tiver o perfil que a empresa está procurando (há exceções, claro, eu mesma já consegui indicar uma amiga pra minha vaga quando saí de licença maternidade, mas isso é exceção por essas bandas, talvez porque meu chefe seja americano ele veja QI com outros olhos, talvez porque ele realmente me ame. haha).

Enfim, passei meses dando murro em ponta de faca e enviando meu longo e qualificado currículo pras vagas de paralegal/legal secretary/legal assistant e no máximo conseguia uma mísera entrevista por mês, sempre infrutífera.

Até que o Thiago finalmente me convenceu a cortar meu currículo, enxugá-lo ao máximo. Como foi dolorido! Negar toda a experiência que eu tinha, dizer que eu só atuava como “suporte” no escritório que trabalhei no Brasil quando na verdade eu tinha o meu próprio time de advogados, cuidava de quatro grandes clientes praticamente sozinha e ganhava participação nos lucros. Depois de contornar meu ego, reduzi meu currículo para 2 páginas, onde praticamente constava assim:

Meu nome
+
Meus dados pessoais (endereço, celular e email) – P.S.: Muita gente aconselha a não incluir o endereço porque pode ser motivo de discriminação dependendo do bairro que vc mora.
+
Career objective – aqui eu falava em 3 linhas qual meu objetivo na área jurídica, no caso trabalhar como paralegal ou legal assistant (eu mudava pra legal secretary dependendo da vaga) numa posição em que eu pudesse desenvolver meus conhecimentos jurídicos e administrativos.
+
Profile – aqui eu colocava palavras chaves que eram pedidas no anúncio, tipo: “motivated, fast learner, diplomatic, proactive, multitask” exemplificando muito brevemente com fatos da minha experiência. Tipo: “Motivated, fast learner and a successful 9-year track record in the legal area, specialized in commercial litigation.” Esse campo tem que ser adaptado para cada vaga, vc tem que ler o que a vaga pede e tentar ao máximo “responder” a todos os itens solicitados.
+
Education – colocava apenas meu diploma no TAFE e meu bachelor of law. Tirei minha pós e minha habilitação na OAB por serem absolutamente irrelevantes pra posição de suporte que eu aplicava.
+
Employment History – aqui eu colocava o período que trabalhei na empresa, o nome da empresa (detalhe que se for “…Advogados” vale a pena traduzir para “…Lawyers” pra eles saberem aqui que se tratava de um escritório de advocacia e embaixo do nome do escritório eu ainda colocava uma descrição dele assim: “Medium-sized full-service corporate law firm”. Se vc trabalhou pra uma empresa, vale a pena fazer o mesmo pra eles saberem aqui o tipo de lugar que vc trabalhava), a posição que eu tinha no escritório e as responsabilidades que tinha.

Aqui faço um adendo pra fazer uma confissão: depois de tanto ser rejeitada ou sequer obter resposta, comecei a colocar no meu currículo que eu trabalhei no Brasil como “legal assistant” e não como advogada. Feio isso, eu sei, mas não estava mentindo criando uma posição que eu não atuava, eu apenas estava “diminuindo” a minha função. Coincidência ou não a partir daí comecei a receber muito mais retorno e até o escritório que me contratou hoje foi com o currículo assim. Me envergonho até hoje pelo que fiz e foi um sufoco quando tive que dizer a verdade aqui. Quer dizer, sufoco pra mim, porque meus chefes acharam super natural eu ter mentido pra baixo, é super comum imigrantes fazerem isso pra conseguir o primeiro emprego na Austrália. Tanto isso não foi problema que quando eles me ofereceram uma promoção do cargo de legal secretary para paralegal, pediram meu currículo verdadeiro com minha experiência de advogada para mandar pra sede do meu escritório nos EUA e contaram essa experiência na hora de fazer o meu contrato de paralegal, então eu já comecei como paralegal sênior.

Muita atenção para essa parte de “responsabilities” no campo de experiência profissional. Como eu já disse acima, não adianta nada vc dizer que era o bambambam da advocacia no Brasil se está aplicando pra vagas “inferiores”. O ideal é colocar sua experiência em bullet points com frases curtas, tentando ao máximo fazer o link entre o que vc fazia no Brasil e o cargo que está almejando. Ex.: eu no Brasil era responsável por elaborar relatórios de auditoria para clientes. Claro que no Brasil eu fazia isso sozinha com mínima supervisão por conta da minha função, mas de que adianta dizer isso, dizer que eu tinha reuniões com os clientes para analisar orçamento, etc, se eu não teria a mesma autonomia aqui? Então no currículo constava simplesmente: “Preparation of billing, monthly reports to clients and auditing reports”, que efetivamente era o que eu fazia, eu só omitia o grau de responsabilidade. Vale dizer que até hoje faço carta de auditoria como paralegal, só tenho mais supervisão do que tinha no Brasil claro.

Alguns outros exemplos de funções que constavam no meu currículo:

  • Filing and maintaining accurate document records
  • Establishing deadline control
  • Diary management
  • General administrative support, including letters and email correspondence
  • Drafting correspondence, contracts, letters of advice, pleadings and other court documents
  • Liaising with the client to ensure that they comply with federal, state and municipal laws
  • Preparing and/or revising of drafts of contracts, including novation, assignment, and joint ventures
  • Drafting publishing contracts, license and / or assignment agreements
  • Liaising with state and federal regulators on various matters
  • Conducting client interviews and meetings
  • Preparation of legal opinions and reviews
  • Preparation of billing, monthly reports to clients and auditing reports
  • Making presentations to clients
  • Drafting precedent documents
  • Preparation of business plans and attending to business development matters


Detalhe que apesar de eu trabalhar basicamente com contencioso também já trabalhei no jurídico de um banco de investimento no Brasil e no escritório onde trabalhei por quase 10 anos eu já fiz muita coisa de contratos, ambiental, etc, então eu tinha bastante material pra trabalhar no currículo, só colocava de forma mais simplificada.
+
Trabalho voluntário – aqui isso é muito valorizado, então eu colocava o tempo que trabalhei no Procon como voluntária e o trabalho que fiz aqui na Austrália como voluntária no tribunal de justiça (bobo, na verdade eu só ficava na recepção dando informações sobre as audiências, como buscar assessoria jurídica gratuita, etc, mas tava valendo pra embelezar o currículo e colocar algum tipo de "experiência local". haha)
+
Skills – aqui eu colocava a fluência em português e espanhol (por favor, não vá colocar seu nível de inglês! Se vc está aplicando pra uma vaga em inglês o mínimo que se espera é que seu inglês seja fluente. Se vc não tem inglês suficiente nem pra conversar com um recruiter por telefone, pode desistir e ir estudar inglês primeiro), proficiência em programas de informática e outras “administration skills” como:

  • Drafting skills
  • Research
  • Making presentations
  • File management
  • Diary management
  • Dictaphone typing
  • Document formatting
  • Billing


Pra quem não sabe, “dictaphone typing” é transcrever gravação de um advogado com as notas dele de uma fita para o computador. Não sei se isso ainda é muito frequente aqui, no meu escritório não se usa, mas fui em algumas entrevistas que o advogado usava. De novo, só coloque essa “skill” se vc tiver um bom ouvido para transcrever gravação em inglês. Eu me sentia segura pra colocar porque tivemos uma matéria dessas no TAFE e eu percebi que conseguia tranquilamente fazer uma transcrição.

+

Referência – os conselhos se divergem: muito recruiter diz pra não colocar no currículo, muitos dizem pra colocar. Eu acabei colocando, com os dados dos sócios do meu escritório no Brasil em português mesmo. Vcs podem pensar: “ah, mas ninguém vai checar referência em outro pais”. Pior que checa! O recruiter que me colocou nesse escritório que estou hoje mandou um email para as minhas referências com um questionário para eles responderem em inglês sobre minha função lá e se eles me recomendavam mesmo. Então se vc colocar referência, avise a pessoa e, claro, coloque alguém que fale inglês! :)


2) Passada a fase do currículo e cover letter vem a dúvida: tá, e agora pra quem eu mando? Tem vários sites com vaga de emprego, mas eu particularmente acho o Seek o mais completo e só aplicava por lá. Vc pode fazer a busca pela cidade, tipo de vaga, etc, e muitas vezes dá pra aplicar pelo Seek mesmo, outras o anúncio vai ter um email pra vc enviar a cover letter e o currículo. Aí muitos me perguntam: e pra que vagas eu posso aplicar? Isso vai depender da sua experiência e objetivo profissional. Eu aplicava basicamente para:

- receptionist e administrative assistant/administrative clerk (no início, porque depois me dei conta que essas vagas eram “júnior” demais e pagam uma mixaria)

- legal secretary (tenha em mente que a secretária jurídica aqui faz mais do que no Brasil, aqui além de atender o telefone a função inclui: arquivamento de documentos, billing, edição de documentos, agendamento de viagens, atualizacao de sistemas com o time entry dos advogados, etc, e em muitos escritoriós é uma plataforma pra se chegar no cargo de paralegal).

- executive assistant (nesse caso só pra algumas vagas eu conseguia me encaixar, pois a maioria exige experiência mais específica no cargo. Muitas vezes vc pode observar nos anúncios que “executive assistant” tem as mesmas funções de um “legal secretary” ou “legal assistant”, e as vezes é mais qualificado. Então na dúvida, abra a vaga, leia o que é pedido do candidato e se vc consegue se adequar.)

- paralegal e legal assistant (muitas vezes usado como sinonimo, eu confesso que até hoje não entendo se há realmente uma diferença nos cargos. Aqui no meu escritório o meu contrato diz “legal assistant” e na intranet da empresa e na minha assinatura de email diz “paralegal”).

Há ainda outras vagas que dependendo da sua experiência vc pode tentar aplicar e ver se cola, como “debt collector”, “conveyancer”, “contracts coordinator”, etc. Eu particularmente não aplicava pra nada disso porque não conseguia adaptar minha experiência pra essas vagas. Mas se vc tem uma forte experiência em societário, tributário, contratos, pode tentar também algo nessa linha. Já ouvi dizer que, em tese, um advogado estrangeiro também poderia trabalhar como “in-house lawyer” aqui, ou seja, no jurídico interno de uma empresa. Eu nunca tentei (até porque minha experiência era basicamente com contencioso) e nem conheço quem tenha tentado, então não sei dizer se cola.
Ah, detalhe pros advogados que trabalham com contencioso: aqui o contencioso civil funciona de forma bem diferente. Então se vc disser que tinha experiência só com contencioso te limita muitíssimo. O que chamamos de contencioso de Brasil aqui eles chamam muitas vezes de “commercial” ou “full-service corporate” law. Claro que se eu aplicava pra uma vaga em escritório de contencioso eu focava que tinha experiência em “litigation” (como o contencioso é chamado aqui), mas tenha em mente que no common law esse processo é bem diferente do Brasil e envolve um grande trabalho “pre-trial”. Pra vcs terem uma ideia a única vaga que fiz entrevista em “litigation” no dia da entrevista me explicaram que o trabalho era basicamente ficar catalogando evidencias “pre-trial”, renomeando nome de arquivo na “database” do caso, ou seja, totalmente sacal e pagava uma miséria (talvez por isso eles só conseguissem contratar advogados estrangeiros desesperados por uma primeira experiência na Austrália. Ah, e que fique claro que eu estava tão desesperada que estava disposta a aceitar o trabalho. haha Por sorte fui chamada aqui pro meu escritório antes por um salário bem maior e desisti desse processo seletivo).

Como esse post já está enorme, no próximo post vou falar da próxima etapa: a entrevista.

P.S.: Esse post e o próximo são basicamente pra quem tem visto de residência. Nada impede que com outro visto vc consiga uma vaga nessa área, mas tenha em mente que vai ser beeemmm mais difícil.

terça-feira, 22 de julho de 2014

Esclarecimento aos advogados

Aproveitando uma mensagem que respondi hoje, queria fazer um esclarecimento.

Estou sabendo que há umas semanas foi publicada uma reportagem em vários jornais do Brasil falando sobre as profissões em demanda na Austrália. Engraçado que essa lista da SOL não é nenhuma novidade, ela só é atualizada anualmente pelo governo australiano.

É verdade que algumas profissões entraram na lista esse ano, como chef e pedreiro (sendo que chef já esteve durante muitos anos, foi retirada e agora só retornou), mas a maioria não é nenhuma novidade. Mesmo assim os jornais brasileiros publicaram como se fosse a novidade do milênio. Oh, well... rs

Enfim, o Jerry já fez ótimos posts sobre isso (aqui e aqui), e com certeza ele entende melhor do que eu pra opinar. ;)

O que eu queria esclarecer nesse post é sobre uma das reportagens que afirmou que advogado estaria na lista de demanda.

Talvez por conta disso tenho recebido um número maior de emails de advogados perguntando sobre as possibilidades na Austrália.

Ocorre que eu acho que essa reportagem foi extremamente tendenciosa e sem o mínimo de cuidado. A matéria é incorreta quando fala em advogados. Se vc for ver a lista em inglês, o que está lá é “Barrister” e “Solicitor”, e não advogado.

Como eu já expliquei algumas vezes aqui no blog (nesse post, nesse, nesse, nesse), essas profissões não tem equivalência no direito brasileiro e demandam um processo específico de capacitação. Então ainda que esteja em demanda na Austrália, um advogado brasileiro não conseguiria aplicar pra residência com base na lista da SOL enquanto não for admitido na Austrália como barrister ou solicitor.

Ou seja, é o que eu já disse e continuo dizendo: não quero desanimar nenhum advogado, mas acho praticamente impossível aplicar pro visto de residência estando no Brasil e sendo advogado brasileiro. Quem se encontra nessa situação deve tentar buscar outro caminho, infelizmente.

No meu caso, quem aplicou pro visto foi o Thiago, como arquiteto, o meu visto foi concedido como esposa, sem nenhuma relação com a minha profissão.

Desculpe jogar um balde de água fria nos advogados, mas nossa profissão é realmente complicada de exercer em outro país, pela falta de equiparação dos sistemas jurídicos. E mesmo advogados que vem do sistema da Common Law (como ingleses, neozelandeses e até americanos) tem que passar pelo processo exigido pela Law Society pra poder validar o diploma aqui e ser reconhecido como barrister ou solicitor apto a exercer a advocacia na Austrália.

Não me incomodo de responder a dúvidas, e juro que tento responder o mais rápido possível a cada mensagem e email que recebo (ainda que as vezes eu me perca e só ache eles semanas depois perdidos na minha caixa de entrada...rs), mas não tenho muito mais informações do que as que coloco no blog para dar... Não validei meu diploma de advogado aqui, continuo trabalhando como legal secretary/legal assistant, e não pretendo advogar aqui na Austrália.

Quem conseguir trilhar um caminho diferente e quiser compartilhar sua experiência aqui no blog, fique a vontade pra me escrever um relato que publico aqui. :)

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Ser advogado na Austrália (parte III)

Pequeno update nas informações sobre validação do diploma de advogado na Austrália: conversando com uma brasileira advogada (que está fazendo o curso para se tornar agente de imigração, o que em si não tem nada a ver com a validação do diploma de direito), ela me disse que conheceu uma outra brasileira que está fazendo o processo de validação.

Essa brasileira advogada já submeteu o histórico da faculdade para a LAB (Legal Admission Board – mais informações nesse post aqui) e começou a estudar as matérias exigidas (umas 11 ou 12 se não me engano). Diferente do que eu pensava, as matérias para estudar não custam uma fortuna, é algo em torno de $600. Como só é permitido cursar 2 por semestre (e muito dificilmente vc consegue fazer mais do que isso mesmo que quisesse, pois é bem puxado e se for trabalhar fora concomitantemente, é praticamente impossível), fica em torno de $2.400 por ano, o que é um valor bem módico, muito menos do que eu pensava.

Essa mesma fonte também me disse que uma vez que vc começa a estudar essas matérias para validar o diploma, fica bem mais fácil conseguir um emprego na área, como paralegal ou legal assistant, pois vc faz muitos contatos na faculdade.

Me bateu até um pequeno arrependimento de não estar trilhando esse caminho, ainda mais quando começou a trabalhar aqui no meu escritório uma advogada italiana, que fez um MBA em Nova Iorque e trabalha aqui como advogada mesmo sem validar o diploma na Austrália, já que ela só atua como advogada estrangeira.

Mas no fundo sei que tomar esse rumo seria só pelo retorno financeiro, o mesmo que fiz no Brasil e nunca tive coragem de largar. Agora é minha chance de recomeçar e fazer o que realmente gosto. O duro é ter motivação concluir meus novos estudos e recomeçar do zero...

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Ser advogado na Austrália (parte II)

Eu costumo receber alguns emails de advogados querendo vir pra Austrália e perguntando sobre o processo de validação.

Gostaria muito de poder ajudar mais, mas como eu já comentei aqui no blog, eu não cheguei a começar o processo, aliás sequer entrei em contato com a Law Society ou a Legal Admission Board de NSW. Tudo o que eu sei foi lendo na internet ou ouvindo outras pessoas falarem.

O site onde tem todo o passo a passo e os requisitos para NSW é esse aqui: http://www.lpab.lawlink.nsw.gov.au/lpab/legalprofession_overseas_practitioners/legalprofession_overseas_practitioners_qualassess.html

Pra quem vem da Nova Zelandia e países da Common Law (como EUA, Inglaterra) o processo fica mais simples, mas países da Civil Law como o Brasil, América Latina e parte da Europa, o processo fica bem mais complicado.

Em parte por isso desisti de validar meu diploma. Não estou mais a fim de estudar 2 anos só pra conseguir a validação, e depois recomeçar a carreira como advogado júnior trabalhando longas horas. Fora que precisaria de um forte investimento financeiro pra pagar a tradução de todas as minhas ementas + IELTS acadêmico (onde vc precisa tirar nota média mínima de 8, sendo mínima de 7 no listening e reading, 8 no writing e 7,5 no speaking) + as matérias que eu teria que fazer + o PLT.

Não conheço ninguém, seja brasileiro ou português, que tenha conseguido validar o diploma de advogado aqui. Os poucos brasileiros que conheci com diploma de direito no Brasil acabaram desistindo no meio do processo de validação, ou sequer começaram e se contentaram com um emprego numa posição de suporte como legal assistant, legal secretary ou paralegal (meu caso inclusive).

Outro ponto é que quem decidir começar o processo tem que estar preparado para o alto investimento financeiro. Primeiro para pagar a tradução das ementas do curso de direito para o inglês, segundo para pagar as taxas da Legal Professional Board (pelo que me disseram, só pra dar entrada na documentação custa uns $400), terceiro para pagar as matérias que eles vão mandar vc estudar + o PLT.

Lembrando que quem tem visto de residência paga os cursos (seja no TAFE seja nas universidades) no mesmo valor que o cidadão australiano, mas não tem direito ao crédito estudantil do governo. Eu achava que tinha, mas quando fui me inscrever no curso que estou fazendo atualmente (nada a ver com direito) indaguei e me disseram que não (a título de curiosidade, o único visto que dá direito a esse crédito do governo é o de refugiado). Até me ofereceram parcelar em 12 vezes (o que é raro por aqui), mas não é esse crédito estudantil do governo que vc pode pagar em mil vezes ao longo da vida e sai bem pouco por mês (fora que vc só começa a pagar quando estiver recebendo um salário mínimo de x por ano).

Fiquem a vontade para me mandar email com dúvidas (denisefpg@gmail.com), mas quanto a validação de diploma de advogado sinto dizer que não tenho mais nada a acrescentar...

Pra não dizer que esse post é só de desencorajamento para os colegas advogados, ressalto que não validar o diploma aqui não significa que vc não possa ter uma carreira na área jurídica. Existem algumas opções que podem ser recompensadoras, como por exemplo:

- é possível (em tese) trabalhar como advogado in-house (no jurídico interno de empresa), ou na parte de consultoria, onde não há exigência de uma licença de advogado. Digo em tese pois acho muito difícil conseguir uma vaga assim só com a experiência no exterior. Pra quem trabalhava com contencioso, como eu, acho bem improvável, mas tenho amigos no Brasil que trabalham com contratos e societário ligado a empresas internacionais, talvez com um currículo assim facilite.

- existem algumas carreiras na área jurídica que não demandam a licença de advogado, mas um bacharelado em direito pode ajudar no currículo. É o caso de conveyancer, debt collector, agente de imigração. Todos esses que listei demandam no geral um curso técnico, que no caso de conveyancer eu sei que tem no TAFE. Eu cheguei a aplicar para algumas vagas de debt collector, usando a experiência que tive no Brasil com recuperação de crédito (pouca, mas já deu pra dar uma enrolada no currículo). Cheguei a ir a uma entrevista num escritório de advocacia, mas acho que eles queriam alguém com mais conhecimento do sistema australiano. Fazer um curso aqui poderia ajudar nesse ponto. Não me interessei em seguir esse caminho pois sempre odiei essas áreas do direito (tanto conveyancing, como debt collection, como imigração).

- posições de suporte ao advogado, como paralegal, legal assistant ou legal secretary. Um paralegal sênior pode atuar exatamente como um advogado, com as mesmas funções, com exceção claro de assinar as peças e prestar consultoria. Fora que essas profissões pagam muito bem. Pra se ter uma idéia, outro dia mesmo uma advogada que trabalha comigo estava comentando que no escritório que ela começou como júnior lawyer, as secretárias ganhavam um salário anual de $80-90 mil dólares, enquanto ela (advogada) ganhava $70,000. Claro que, como eu disse a ela, essas secretárias não tinham uma projeção de carreira de ganhar muito mais que isso, enquanto ela como advogada podia chegar a muuuiiitttooo mais. De todo modo um salário de $80-90 mil já é considerado muito bom, em muitas profissões esse valor vc só alcança com décadas de carreira e olhe lá.
Lembrando que paralegals podem chegar a ganhar mais que secretárias, as vezes $120 mil anuais, o que nem um arquiteto com décadas de carreira muitas vezes ganha. Mas no inicio de carreira um paralegal normalmente ganha menos se comparado com secretária ou legal assistant, principalmente porque normalmente paralegals são estudantes de direito.
Me lembro que nas entrevistas de emprego que fui pra vaga de paralegal chegaram a me oferecer $40.000 anuais, o que dá pouco mais de $600 semanais depois de descontado imposto e superannuation (nesse site tem uma calculadora ótima pra chegar ao valor mensal, já que aqui na Austrália a regra é negociar o salário em termos anuais). Isso dá $16 a hora, sendo que um garçom ou cleaner ganha facilmente $20 a hora (claro, sem emprego fixo, no estilo de casual, sem projeção de carreira, mas enfim, só pra vcs terem uma idéia).

Resumindo, tudo que eu sei sobre o assunto é isso e o que já escrevi antes (aqui e aqui). Se eu souber de alguém que conseguiu levar o processo até o final, volto aqui pra contar.